Lygia escreve como quem acende uma luz fraca em um quarto escuro: não revela tudo, mas mostra o suficiente para inquietar. Seus personagens vivem à beira de quase tudo o que dói: culpa, solidão, morte, memórias ruins e quase nunca encontram redenção fácil. O social e o psicológico caminham juntos, como duas vozes que se sobrepõem sem nunca se anular. E isso é de um brilhantismo que, se você me pedir um exemplo do que é divino, eu lhe apresentaria a escrita da Lygia.
Em Natal na Barca, entramos numa travessia literal e simbólica. A história se passa dentro de uma barca, numa noite de Natal, onde poucos passageiros dividem o mesmo espaço e o mesmo silêncio. Entre eles, uma mulher pobre carrega nos braços um menino doente, quase imóvel, enquanto o mundo segue indiferente ao redor.
O conto trabalha com a suspensão: não sabemos exatamente se o menino dorme ou se já morreu. A fé da mãe, simples e quase ingênua, contrasta com o olhar racional da narradora, criando uma tensão delicada entre esperança e desamparo. É como se a vida estivesse ali, por um fio, balançando junto com a barca no escuro.
Socialmente, Lygia expõe a desigualdade sem discursos diretos. A miséria não grita; apenas existe, sentada num banco duro, atravessando o rio na noite em que se celebra o nascimento. Psicologicamente, o conto toca no medo mais primitivo: o de perder, o de não poder fazer nada, o de apenas observar.
Natal na Barca não fala de milagres grandiosos nem de finais confortáveis. Fala da vida suspensa, da espera silenciosa e da fé que resiste mesmo quando tudo parece escuro demais. A barca segue, o rio atravessa, e o leitor desembarca diferente, talvez mais atento às dores invisíveis que nos cercam. É nesse ponto que Lygia Fagundes Telles se impõe: ao mostrar que, mesmo nas noites mais simbólicas do calendário, a existência continua sendo essa travessia frágil, humana e profundamente desigual.
É, eu não posso prometer um clima natalino fofo, mas a densidade psicológica inerente a condição humana, eu garanto rsrs. E a propósito, todos os contos desse livro são perfeitos, considerem conhecer.
Abraços e até a próxima!
Elôh Santos
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