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domingo, 7 de dezembro de 2025

Antes do Baile Verde: a travessia da esperança em Natal na Barca

  

Já estamos em dezembro e eu não sei muito bem sobre o que trazer aqui para o blog, pois minha rotina de leituras com meus thrillers psicológicos e plot twists de mulher maluca continua a todo vapor.  Então decidi considerar o que já consumi ao longo da minha jornada literária e audiovisual dentro dessa temática. Posso adiantar que serão apenas contos, pois não me lembro de ter lido um livro inteiro com esse recorte específico, e, no audiovisual, vou tentar nos poupar das bombas natalinas dos streamings. Missão aceita. Então vamos lá com o primeiro conto, lido ainda na minha adolescência, mas cuja história lembro nitidamente.

Antes do Baile Verde, de Lygia Fagundes Telles, é uma coletânea que reúne contos marcados pela tensão psicológica, pelo desconforto silencioso e pelas fissuras da vida cotidiana. Entre os mais conhecidos estão Antes do Baile Verde, Venha Ver o Pôr do Sol, O Jardim Selvagem e Natal na Barca. São narrativas curtas, mas densas, que colocam o leitor diante de situações aparentemente simples, porém carregadas de sombra.

Lygia escreve como quem acende uma luz fraca em um quarto escuro: não revela tudo, mas mostra o suficiente para inquietar. Seus personagens vivem à beira de quase tudo o que dói: culpa, solidão, morte, memórias ruins e quase nunca encontram redenção fácil. O social e o psicológico caminham juntos, como duas vozes que se sobrepõem sem nunca se anular. E isso é de um brilhantismo que, se você me pedir um exemplo do que é divino, eu lhe apresentaria a escrita da Lygia.

Em Natal na Barca, entramos numa travessia literal e simbólica. A história se passa dentro de uma barca, numa noite de Natal, onde poucos passageiros dividem o mesmo espaço e o mesmo silêncio. Entre eles, uma mulher pobre carrega nos braços um menino doente, quase imóvel, enquanto o mundo segue indiferente ao redor.

 O conto trabalha com a suspensão: não sabemos exatamente se o menino dorme ou se já morreu. A fé da mãe, simples e quase ingênua, contrasta com o olhar racional da narradora, criando uma tensão delicada entre esperança e desamparo. É como se a vida estivesse ali, por um fio, balançando junto com a barca no escuro.

Socialmente, Lygia expõe a desigualdade sem discursos diretos. A miséria não grita; apenas existe, sentada num banco duro, atravessando o rio na noite em que se celebra o nascimento. Psicologicamente, o conto toca no medo mais primitivo: o de perder, o de não poder fazer nada, o de apenas observar.

Natal na Barca não fala de milagres grandiosos nem de finais confortáveis. Fala da vida suspensa, da espera silenciosa e da fé que resiste mesmo quando tudo parece escuro demais. A barca segue, o rio atravessa, e o leitor desembarca diferente, talvez mais atento às dores invisíveis que nos cercam. É nesse ponto que Lygia Fagundes Telles se impõe: ao mostrar que, mesmo nas noites mais simbólicas do calendário, a existência continua sendo essa travessia frágil, humana e profundamente desigual.

É, eu não posso  prometer um clima natalino fofo, mas a densidade psicológica  inerente a condição humana, eu garanto rsrs. E a propósito, todos os contos desse livro são perfeitos, considerem conhecer. 

Abraços e até a próxima!

Elôh Santos

 


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