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domingo, 7 de junho de 2026

Daisy Jones & The Six: escrita viciante, protagonistas difíceis de amar

 

Li Daisy Jones & The Six depois do grande hype. Admito que realmente protelei bastante a leitura: comprei o livro toda emocionada, mas, toda vez que olhava para ele, sentia zero vontade de abri-lo. Coisas comuns na vida de leitores (por favor, alguém aí diga que também é assim).

Pois bem, livro lido, vamos à resenha.

A obra conta a história de uma banda de rock dos anos 70 usando um formato bem diferente: é como se fosse uma grande entrevista realizada anos depois, com cada integrante relembrando tudo o que aconteceu. Acompanhamos a ascensão do grupo, os conflitos internos, os shows lotados e, claro, a parceria explosiva entre Daisy, uma cantora linda e cheia de atitude (chataa), e Billy, o líder carismático e controlador da banda (porree).

O que mais me impressionou foi como a escrita da Taylor Jenkins Reid é coesa (meu sonho dourado é um dia conseguir escrever de forma tão consistente assim). A história flui de um jeito tão natural que, em alguns momentos, eu esquecia que estava lendo e me sentia assistindo a um documentário de verdade. As vozes dos personagens são bem distintas, os diálogos são afiados e a ambientação nos anos 70 funciona muito bem. E ambientação é algo que valorizo bastante em obras literárias.

O livro tem mais de 400 páginas, mas a leitura passa voando porque é suave e viciante.

Agora, vou ser sincera: apesar de a história ser ótima, os protagonistas não conseguiram me cativar tanto quanto eu esperava. Tanto Daisy quanto Billy são extremamente autocentrados. Ela passa boa parte do livro numa vibe de "ninguém me entende" e toma decisões impulsivas que afetam todos ao seu redor. Ele, por outro lado, é daqueles que acreditam que o mundo gira em torno da própria visão artística e do próprio sofrimento.


Teve momentos em que achei os dois bastante mimados, e isso me irritava, honestamente. Cada um parece tão preso aos seus dramas... Daisy às drogas e à fama, Billy à culpa e ao ego , que mal consegue enxergar as pessoas à sua volta. E isso acabou me frustrando um pouco, porque os outros membros da banda são interessantes e, muitas vezes, ficam em segundo plano. Eu queria mais deles e menos desse constante "eu, eu, eu" dos protagonistas.

No fim, Daisy Jones & The Six é um livro que recomendo pela estrutura criativa, pela excelente ambientação e pela fluidez da escrita. Porém, não sei se todo leitor vai se apaixonar pelos protagonistas com facilidade. Para mim, faltou aquele afeto, aquela torcida genuína que faz a gente se apegar aos personagens. Dá para admirar a construção da trama e a maneira como tudo se conecta, mas Daisy e Billy me deixaram com a sensação de que faltou algo,  justamente por serem tão fechados em seus próprios mundos.

Vale a leitura, mas com essa ressalva.

Abraço e até a próxima!

Elôh Santi


sábado, 23 de maio de 2026

Mistério, medicina e intrigas: por que amei Diários de uma Apotecária

 

Quem acompanha minhas resenhas não costuma me ver falando de animes e mangás por aqui. Pois bem, acho que isso tende a mudar. Tenho consumido bastante desse universo e acredito que esteja vivendo um caso de amor eterno à primeira vista. Comecei a buscar informações, entender melhor o que são mangás e animes, e me apaixonei de verdade.

Vou virar especialista e falar apenas disso daqui para frente? Óbvio que não, né? Rsrs. Costumo optar pelo poliamor quando o assunto é consumo cultural. Mas, feito esse aviso, espero que vocês considerem esta indicação de uma novata recém-chegada a esse mundo apaixonante.

E talvez eu tenha começado pelo melhor caminho possível. Falar de Diários de uma Apotecária é quase uma trapaça de tão fácil, porque a história consegue agradar pessoas de diferentes idades e interesses. Você não precisa ser fã de animes para se encantar. É daquelas obras que poderiam funcionar como um romance de época, um drama de mistério ou até uma série de investigação médica. E é justamente essa mistura que faz dela uma porta de entrada perfeita para quem, como eu, está dando os primeiros passos nesse universo.

Grande parte desse encanto vem da protagonista, Mao Mao. Ela é uma jovem apotecária que foi sequestrada e acaba trabalhando no palácio imperial. Longe de ser uma mocinha indefesa, é inteligente, curiosa, debochada na medida certa e completamente fascinada por venenos e remédios. Cada episódio apresenta um novo mistério: um possível envenenamento, uma doença estranha ou algum costume perigoso dentro do palácio. E ela resolve tudo usando conhecimento científico e um raciocínio afiado. É impossível não torcer por ela.


Mas Mao Mao não carrega a série sozinha. A ambientação também é um dos seus grandes acertos. O palácio é belo, repleto de intrigas, hierarquias e segredos, mas a narrativa nunca se torna excessivamente pesada. Há um equilíbrio constante entre o suspense, o humor seco da protagonista e momentos mais leves e delicados. Ao mesmo tempo em que você aprende sobre medicina antiga, sobre a vida nos cortiços e sobre o funcionamento da corte imperial, também se diverte com as situações em que Mao Mao se envolve. É educativo sem ser chato e leve sem ser superficial.

Por isso, se você também sempre torceu o nariz para esse universo ou simplesmente nunca lhe deu uma chance, me acompanha nessa: comece por Diários de uma Apotecária. É uma história que respeita a inteligência do público, desperta a curiosidade e ainda deixa aquela vontade de mergulhar em mais mangás e animes. E, se depender desta novata aqui, esse certamente não será o último amor à primeira vista. 

Abraços e até a próxima!

Elôh Santi

🎬CLAQUETE: 

Título: Diários de Uma Apotecária 
Titulo Original: Kusuriya no Hitorigoto
Direção: Norihiro Naganuma
Ano: 2023 (Japão)  
Gênero: Anime, Mistério, Histórico
Duração: 24 episódios (1º Temporada)
Onde assistir: Netflix

sábado, 16 de maio de 2026

Talvez você deva conversar com alguém: não é autoajuda, é um choque de realidade emocional


Sinto que devo não só falar sobre este livro, mas também indicá-lo. E, para indicar, preciso antes confessar que  comecei essa leitura com uma soberba típica de quem já leu alguns livros de autoajuda e não costuma tê-los em boa consideração. Sim, as vezes me sinto aquele  tipo de leitora que lê só para falar mal com propriedade. Mas este livro me desmontou em menos de cinquenta páginas.

Lori Gottlieb, a autora, é uma terapeuta experiente e também uma humana comum, com o coração partido. A grande sacada do livro Talvez Você Deva Conversar com Alguém é derrubar a fantasia de que existem pessoas emocionalmente resolvidas e pessoas “quebradas”. Tudo começa quando ela, após um término devastador, fica tão desorientada que precisa procurar terapia. É como um mecânico cujo próprio carro quebra no meio da estrada: constrangedor, inevitável e meio engraçado (no sentido trágico). O sofrimento não respeita currículo, inteligência ou diplomas na parede.

O livro constrói um espelho triplo: Lori escuta seus pacientes, o terapeuta dela (Wendell) escuta Lori, e nós, leitores, escutamos todo mundo enquanto reconhecemos, com vergonha e alívio, nossos próprios truques mentais. Os pacientes formam uma galeria do desespero cotidiano: uma jovem terminal, um produtor de Hollywood cuja arrogância esconde solidão, uma recém-casada presa em padrões autodestrutivos. Cada história é um soco controlado, sem pieguice. O que dói mesmo não é só o que aconteceu, mas o roteiro rígido que criamos sobre o que aconteceu.

Essa ideia das narrativas internas genuinamente me interessa. O livro mostra que muitas vezes não sofremos pelos fatos em si, mas pela história que insistimos em contar para nós mesmos. Uma história que organiza o caos e, ao mesmo tempo, nos aprisiona. Lori enxerga nos pacientes padrões dignos de um detetive, mas é completamente cega para suas próprias armadilhas. A terapia não aparece como um lugar mágico de respostas instantâneas: há vergonha, projeção, resistência. E humor. Um humor ácido, daquele que faz rir para não chorar.


Wendell, o terapeuta de Lori, merece um parágrafo só para ele. Não espere o sábio imaculado. Ele é irônico, cansado, afetuoso em momentos inesperados e meio desajeitado. É nessa humanidade que mora a verdade mais generosa do livro: o vínculo terapêutico não precisa de perfeição, precisa de presença. Lori descobre que, às vezes, a dor não vem apenas da perda, mas do colapso da imagem que tínhamos da nossa própria vida. O término desorganiza o amor, mas também desorganiza a identidade. Quem sou eu sem o roteiro que eu mesma escrevi? Essa pergunta persegue cada personagem.  E nós, leitores, também.

Por fim, este livro só reforçou a minha percepção de que conversar com alguém é algo imprescindível. E essa leitura nos ajuda a enxergar isso não como fracasso, mas como ato de coragem. Ele não transforma sofrimento em estética, nem terapia em uma religião clean de autocuidado. Não é um livro “fofinho”: por vezes é vagaroso de forma proposital, em outras tantas, quase humilhante . E é por isso que funciona.

Assim, meu convite é: leia Talvez Você Deva Conversar com Alguém. Depois, busque alguém com quem você possa conversar de verdade, e vá sem roteiros. Porque, se tem uma coisa que este livro ensina, é que os melhores roteiros são aqueles que a gente tem coragem de rasgar.

Abraço e até a próxima!

Elôh Santi



domingo, 10 de maio de 2026

Meu Nome é Agneta e representação de uma geração que aprendeu a suportar


Meu Nome é Agneta não é um filme sobre grandes acontecimentos,  e talvez seja justamente aí que ele acerte. A narrativa acompanha Agneta, uma mulher de 49 anos, que passou a vida inteira funcionando: trabalhando, cedendo, cumprindo expectativas, ocupando silenciosamente o lugar que esperavam dela. Agneta representa muito de um contexto geracional que aprendeu cedo a sobreviver pela responsabilidade, mesmo que isso custasse desejos pessoais pelo caminho.

 Aqui, preciso falar de um grupo pelo qual tenho profunda admiração. Como toda boa millennial, bebi , e ainda bebo,  das muitas fontes construídas pela geração mais discreta de todas: a X. Existe algo muito particular nas pessoas que nasceram e se formaram nesse período: costumam ser extremamente competentes, mas raramente fazem alarde sobre isso. É um grupo que sustentou mudanças sociais, tecnológicas e familiares enormes sem transformar cada esforço em espetáculo.

Ao mesmo tempo, talvez justamente por isso, carrega uma dificuldade profunda de romper estruturas. Como se continuar fosse quase uma cerimônia moral. Permanecer no casamento, no trabalho, nos hábitos, nos silêncios, mesmo quando a alma já saiu dali há anos.

 Quando assisti ao filme, vi que Agneta parece viver exatamente nesse espaço entre resistência e resignação. Ela nunca foi completamente apagada. Sempre existiram gostos, vontades e pequenas recusas dentro dela, mas foram desejos domesticados pela rotina e pelo senso de dever. O filme consegue mostrar algo muito humano: nem toda prisão vem da opressão explícita; algumas vêm do costume, do medo de decepcionar e da ideia penosa de que ser adulto é suportar.



A melhor forma de recomendar esse filme, para mim, é dizer em que ele me tocou. Essa história não transforma Agneta numa heroína tardia e caricata. Ela não vira outra pessoa; apenas começa, aos poucos, a escutar a si mesma,  e isso torna tudo muito mais verdadeiro. Porque, na vida real, certas libertações acontecem quase em silêncio.

 Em resumo, acredito que o filme fala sobre o direito de existir para além da utilidade, sobre perceber que cumprir expectativas não é o mesmo que viver. E talvez muitas pessoas da geração de Agneta tenham aprendido, depois de uma longa jornada, que sobrevivência e felicidade não são sinônimos. E aqui talvez valha a máxima: melhor tarde do que nunca.

Abraço e até a próxima, 

Elôh Santi 

🎬CLAQUETE: 

Título: Meu Nome é Agneta
Titulo Original: Je m'appelle Agneta
Direção: Johanna Runevad
Ano: 2026 (Suécia)  
Gênero: Comédia, Romance, Drama
Duração: 113 minutos
Onde assistir: Netflix




sexta-feira, 1 de maio de 2026

O que Por Lugares Incríveis ensina sobre sofrimento invisível

Quando fecho os olhos e penso neste livro, vejo duas formas humanas caminhando por estradas vazias, cercadas de um verde quase melancólico. Uma delas carrega o luto como um casaco pesado, visível a todos. A outra parece flutuar, sorri demais, fala depressa, muda de cor como um camaleão nervoso. Por Lugares Incríveis, de Jennifer Niven, poderia ser apenas mais uma história juvenil sobre amor e perda. Mas não é. É um lembrete delicado e urgente de que há pessoas que choram em público e há pessoas que sangram sorrindo.

Observo Violet Markey e sinto vontade de abraçá-la, e, se você já leu esse livro, certamente também teve esse desejo. Ela perdeu a irmã em um acidente de carro e, desde então, o mundo encolheu. Evita laços enquanto revisita o lugar do ocorrido, como forma de criar uma neblina que faça desaparecer a lembrança de que sua vida continua. Eu sei que Sigmund Freud olharia para Violet e certamente diria que ela está presa no que chamamos de luto complicado: a energia psíquica que deveria se deslocar para novos afetos fica estacionada, como um trem que não sai da estação.

Theodore Finch, porém, é um enigma que me perturbou ainda mais. Carismático, inquieto, capaz de rir alto e sumir no dia seguinte. Ele mesmo se descreve como alguém que tem “dias ruins”. E, com a leitura, a gente descobre que não são só ruins. São variações intensas entre uma energia quase maníaca e um silêncio de poço. Finch aprendeu cedo que o ambiente não acolhia seu verdadeiro self. Então construiu um falso self, uma máscara de funcionamento e graça, para que ninguém percebesse o quanto, por dentro, ele se despedaçava. Sua dor não chora; ela se fantasia de palhaço.

E então acontece o encontro. Violet e Finch são obrigados a fazer um projeto escolar juntos: explorar lugares incomuns de Indiana. E ali, caminhando por mirantes, cemitérios e lagos congelados, os dois criam um pequeno território de trégua. Aqui, chamo isso de respiro subjetivo: um espaço onde a dor pode desarmar as defesas por alguns instantes. Violet redescobre a coragem de desejar; Finch experimenta, frágil e docemente, o que é ser visto de verdade. A relação deles não é romântica no sentido comum. É, antes, uma tentativa de dois náufragos construírem uma jangada improvisada.

Mas aqui está o ponto que o livro ensina com coragem: o amor, por mais bonito que seja, não é hospital. Eu gostaria de acreditar que bastaria o afeto para salvar todos os finais e torná-los felizes. A narrativa do livro, fiel à vida, mostra que nem sempre é possível. Ela me mostra que alguém pode amar com todas as forças e, ainda assim, testemunhar o desmoronamento silencioso do outro. Isso não torna o amor inútil; torna-o humano, limitado e precioso exatamente por isso. Amar alguém com dor psíquica profunda é segurar a mão dele no escuro, mas não é possível ser a própria luz que falta.

Lentamente, vou entendendo que Por Lugares Incríveis não é só sobre o luto por quem se foi. É sobre a perda de si mesmo. Violet perdeu a irmã; Finch perdeu a própria continuidade interna, aquela sensação básica de que amanhã você ainda será você. Essa é a dor invisível que o romance ilumina: a que não aparece em atestados, não pede licença, não faz barulho. Ela se esconde no aluno que tira boas notas, no amigo que faz todo mundo rir, na pessoa que arrumou a cama pela manhã e já não consegue levantar à tarde.

Quando finalizei essa leitura, lembro da sensação intensamente agridoce e falei para mim mesma que deixaria para resenhá-la depois de um tempo, pois fiquei bem mexida. Talvez essa não seja minha melhor resenha. Talvez eu tenha usado muitas metáforas (sempre me critico por isso), mas ela é, com certeza, a digitada com mais cuidado, porque o livro deixou uma pergunta que me acompanha: quantos Finches cruzaram meu caminho sem que eu percebesse? Talvez a maior gentileza que podemos aprender com este livro seja esta: nem toda tristeza pede colo. Algumas pedem apenas que a gente não vire o rosto. Que a gente lembre que alguns sorrisos largos nem sempre refletem a realidade interna. Porque, como Jennifer Niven soube lindamente escrever nas entrelinhas, há pessoas que sangram sorrindo, e o sangue mais difícil de estancar é aquele que ninguém vê.

Um abraço gentil e até a próxima !

Elôh Santi