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domingo, 1 de fevereiro de 2026

Separando a autora da obra: por que O Chamado do Cuco ainda funciona?


Sabe quando a gente leva o trabalho para a cama, mas, de repente, encontra um livro que lê por prazer? Foi exatamente o que aconteceu comigo ao mergulhar em O Chamado do Cuco, de J. K. Rowling... digo, de Robert Galbraith. É  um livro que tem um certo tempo de lançamento, 2013. Mas como me foi solicitado um trabalho em cima da historia, deixei meus óculos de psicanalista na mesa e sentei para ler com a skin de curadora literária, mas depois de um tempo já havia me tornado a minha melhor versão,  leitora curiosíssima.

A história começa com a morte de uma super modelo, Lula Landry, que caiu da sacada do seu apartamento em Londres. A polícia concluiu que foi suicídio, mas o irmão da moça, desconfiado, contrata o detetive particular Cormoran Strike para investigar o caso. E é aí que a minha diversão começa, longe dos diagnósticos e perto de um bom e velho mistério.

O grande acerto do livro está na construção dos protagonistas. Strike não é o detetive charmoso de cinema: é grande, cansado, com uma prótese na perna que dói e uma vida financeira quase falida. Parece alguém que você encontraria num barzinho de esquina reclamando da conta de luz. Ao lado dele surge Robin Ellacott, secretária temporária que deveria estar ali só por um turno, mas carrega inteligência e uma vontade de aventura que ela mesma tenta esconder. A química entre os dois não explode, e sim acende devagar, como vela.

A investigação não aposta em perseguições ou explosões. É paciente, quase artesanal. Strike entrevista pessoas, observa contradições, junta detalhes pequenos. O suspense é construído sem pressa, confiando na atenção do leitor. Em vez de reviravoltas a cada página, temos trabalho de verdade. E isso, curiosamente, é revigorante.

O livro também aproveita para cutucar o mundo da moda e a mídia. A fama aparece como vitrine bonita por fora e vazia por dentro. A imprensa molda narrativas como quem vende espetáculo. E as relações familiares, muitas vezes, parecem girar mais em torno do dinheiro do que do afeto. Existe a famosa Lula Landry,  e também  existe a garota solitária por trás dela. A Londres fria e cinzenta reforça essa sensação de isolamento, quase como um personagem silencioso. Eu realmente amei a atmosfera presente na historia.

Mas agora vamos aos  “mas, porque sempre há.  Em alguns trechos, o ritmo desacelera demais. A parte central, cheia de entrevistas, pode cansar leitores mais ansiosos. Há diálogos que dão voltas antes de chegar ao ponto, o que exige paciência. Além disso, para quem já leu muitos romances policiais, a identidade do culpado não é exatamente surpreendente. As pistas estão ali, organizadas. A revelação é coerente, mas não causa aquele impacto arrebatador. Alguns personagens secundários também funcionam mais como peças do quebra-cabeça do que como figuras profundas.

No fim, O Chamado do Cuco não é um livro que explode, e sim um que se sustenta. Entendi que o mais interessante não é “quem matou?”, mas “com quem vamos investigar?”. A força está no nascimento da dupla Strike & Robin. Terminei a leitura  menos impressionada com o mistério e mais interessado neles.  E opino que esse foi um bom e  sólido começo para essa série. E o melhor: li por para entregar um trabalho e acabei me divertindo. Amo demais quando isso acontece. 

Abraço e até a próxima, 

Elôh Santos 


quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Entre presas e perseguidos: o que realmente assusta em Lua Vermelha


É, preciso te falar desse livro que terminei: Lua Vermelha, do Benjamin Percy. Sabe quando você pega uma história que parece ser só sobre lobisomem, mas, na verdade, é sobre um monte de coisa? É bem isso.

Juro que caí na besteira de ler uma crítica no Skoob, que meio que me desmotivou. Então fui arrastando, arrastando… até que, relendo a premissa, vi que ela era tão meio “fora da casinha” que resolvi abstrair a má vontade.  Em sua obra Percy construiu um mundo onde existe um vírus chamado “lycan”, que transforma as pessoas em criaturas agressivas.

Quem é infectado vive praticamente numa prisão a céu aberto. O governo monitora todo mundo, registra, trata como se fosse uma ameaça nacional. Nessa, a gente acompanha dois personagens principais: um garoto que sobrevive a um ataque e começa a questionar tudo o que aprendeu sobre “monstros”, e uma mulher infectada tentando sobreviver num mundo que a odeia e tem medo dela.

O livro alterna os pontos de vista e vai construindo uma tensão absurda, porque, por trás dos ataques e do horror, existe uma crítica social interessantíssima. Ele fala sobre controle do Estado, sobre como a gente cria bodes expiatórios, como o medo vira violência e como as sociedades escolhem seus inimigos. Não é só um livro de lobisomem, e disso você pode ter certeza.

Agora, minha opinião mais sincera ainda: o livro tem seus méritos? Sim!! Ele é intencionalmente ousado, ambicioso, não fica só no susto fácil. Tem cenas de tensão muito bem escritas, e a crítica política é corajosa e clara. Dá pra sentir que o autor quis fazer algo bem feito.

Mas… porque sempre tem um “mas”, né? O ritmo oscila bastante. E acho que vem daí o fato de ele ter críticas tão negativas no Skoob. Em vários momentos, ele se perde em descrições longas demais, quase didáticas, e a história perde a fluidez. Teve hora em que eu queria mais emoção, mais intimidade com os personagens. Alguns poderiam ter sido muito mais explorados, porque a ideia é gigante, talvez até maior do que a história conseguiu sustentar do começo ao fim.

Mesmo assim, é um livro que ficou em mim. Para eu resenhar algo, ele precisa me marcar, ainda que minimamente. E acredito que essa obra não vai te pegar pelo terror em si, mas pela pergunta que ela deixa ecoando depois que a gente fecha o livro: afinal, quem decide quem é o monstro?

Recomendo se você curte uma leitura que mistura fantasia com “crítica social phoda”. E, quando ler, me conta o que achou, porque, se a gente lê com boa vontade, ele dá pano pra manga rsrs.

Abraço e até a próxima!

Elôh Santos 



sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Confissões de uma Irmã de Cinderela: o espelho invertido de um conto de fadas


Quero falar deste achado que eu mesma não esperava muito. Comprei o livro na Amazon porque estava baratinho e a premissa parecia interessante: ver todo o bafafá da Cinderela pela perspectiva de sua “irmã feia”. Já posso afirmar, de início, que o livro é deveras interessante do começo ao fim. Vou esmiuçar por que cheguei a essa conclusão.

Em Confissões de uma Irmã de Cinderela, de Gregory Maguire, a narrativa clássica é virada de cabeça para baixo, como um espelho que reflete não a princesa, mas a sombra esquecida ao seu lado.

Trata-se de uma história contada pela irmã postiça de Cinderela, como já mencionado. Nesse romance, Maguire expõe as entranhas de um conto de fadas que sempre glorificou a virtude, mas silenciou a complexidade humana. Aqui, a “vilã” ganha voz, e sua confissão se revela um labirinto de inveja, culpa e desespero. Uma metáfora poderosa sobre como os contos infantis podem aprisionar personagens em arquétipos rígidos, negando-lhes o direito à nuance.

Você lerá um livro em que a protagonista-narradora, Iris, não pede perdão nem favor; ela exige compreensão. Sua linguagem é ácida, oscilando entre a autopiedade e a autocrítica, como um rio que carrega folhas apodrecidas e pétalas sensíveis de rosa ao mesmo tempo. E aqui não consigo olhar essa história sem que a psicanálise seja trilho, pois vejo em Iris uma personagem feminina dilacerada pelo desejo de ser amada e pelo ódio imposto de nunca ser suficiente. A rivalidade com Cinderela, que nesta história se chama Clara, tem muito mais a ver consigo mesma do que com essa “irmã perfeita”. Essa rivalidade me pareceu, na verdade, o reflexo de seu próprio vazio, causado por um mundo que impõe limites onde só deveria existir liberdade.

A casa onde Iris, Ruth (a outra irmã postiça) e Clara convivem e são educadas não é um lar, mas um palco de aparências. Essas meninas são doutrinadas para competir, não para se amar, e cada gesto materno parece um cálculo disfarçado de afeto. A madrasta de Cinderela, distante da caricatura malvada, é retratada como uma mulher ferida, consumida pela solidão e pela obsessão por status. Uma figura que espelha a sociedade que a condena. A relação entre Iris, Ruth e Clara é permeada por ciúmes e culpa, como raízes entrelaçadas que sufocam e se sustentam ao mesmo tempo. Contraditório? Sim. Mas estamos falando de relações humanas moldadas por um sistema social opressor, misógino e mascarado.

Também gostei de como o autor subverte símbolos: o icônico sapato de cristal ganha novas camadas de significado. Não é mais um sinal do destino, mas do fracasso. Para Iris, ele representa tudo o que ela não pode calçar: perfeição, aceitação, pureza. Para Clara, a certeza de um destino digno do “felizes para sempre”. Maguire transforma um sapato em uma singela cela de vidro, com grades transparentes e sorrateiramente cortantes.

Assim, esse “feliz achado” se mostrou para mim mais do que uma revisão do conto da Cinderela: é uma história sobre a sombra que todos carregamos, a parte de nós que inveja, que erra, que não se encaixa, mas que possui motivos plausíveis. A obra desafia o leitor a perguntar: quantas “vilãs” foram criadas por contos que as obrigaram a ser más? E quantas Cinderelas foram aprisionadas em sua própria perfeição?

No fim, o livro não destrói o conto de fadas; ele o humaniza, mostrando que até os finais felizes podem deixar cicatrizes profundas. É uma narrativa que usa os escombros de um mito para construir uma ponte entre o ideal e o real, entre o que somos e o que o mundo nos obriga a ser. Imperdível para quem busca histórias que não temem sujar as mãos com folhas apodrecidas enquanto garimpam suas pétalas. E assim, encontram beleza na imperfeição.


Grande abraço e até a próxima!

Elôh Santos 

Título: Confissões de Uma Irmã de Cinderela ✦ Autor: Gregory Maguire
Páginas: 392  ✦ Ano: 2006 ✦ Editora: José Olympio


sábado, 10 de janeiro de 2026

A revolta silenciosa e a busca por solidez em “Summer Strike”

Lançado em 2022 na Coreia do Sul, sob a direção de Lee Yoon-jung, Summer Strike (ou Não Quero Fazer Nada, título dado no Brasil) é muito mais do que um simples K-drama de cura ou romance com essa intenção. Vejo nessa obra um retrato delicado e profundo de um mal-estar contemporâneo: o esgotamento total da alma diante das demandas de um mundo que valoriza apenas o desempenho. A temática principal gira em torno da fuga, não como covardia, mas como ato de sobrevivência, e da reconstrução de uma vida a partir do zero, dos fragmentos que sobram após uma série de perdas.

Nossa protagonista, Lee Yeo-reum, (docemente interpretada por Kim Seol-hyun) é a personificação desse esgotamento. Quando a conhecemos, ela é uma jovem aparentemente comum em Seul, mas carrega um peso invisível: a perda repentina da mãe, um relacionamento traiçoeiro e um ambiente de trabalho tóxico e assediador. Yeo-reum não está simplesmente triste; ela está esvaziada. Sua passividade diante da injustiça do irmão, que fica com os bens da mãe e ainda cobra um anel, não é fraqueza, mas o sintoma de alguém que já não tem forças nem para a própria raiva. Ela está em estado de anomia, um vazio de normas e sentidos que a orientem. Seu colapso é a porta de entrada para a história.

A decisão radical de Yeo-reum de se mudar para a vila costeira de Angok e “não fazer nada” é o cerne da análise. É aqui que o pensamento do sociólogo Zygmunt Bauman ilumina as discussões que quero elaborar a partir da narrativa. Yeo-reum está fugindo da “modernidade líquida”. Sua vida em Seul era feita de relações frágeis (o namorado infiel, colegas de trabalho indiferentes), de um trabalho sem propósito e de uma identidade definida apenas por sua produtividade. Tudo era volátil, descartável, sem peso. Angok, ao contrário, representa o sólido: um lugar com ruas de terra, rostos conhecidos, uma rotina previsível ligada às marés. Sua “greve” é uma greve contra a liquidez. Ela não quer mais ser um fluido que se adapta a qualquer recipiente (as expectativas sociais); ela quer se tornar uma pedra, encontrar seu próprio formato.

Paralelamente, a filosofia de Martin Heidegger nos ajuda a entender a profundidade dessa busca. Yeo-reum, ao parar, está tentando escapar do modo de existência inautêntico, do “ser-para-os-outros”. Em Seul, ela era o que os outros esperavam: uma boa funcionária, uma namorada presente. Em Angok, ela pode tentar se aproximar de um “ser-para-si” autêntico. As cenas longas e quase contemplativas dela simplesmente existindo,  seja tomando café, olhando o mar ou só caminhando, são uma tentativa de se reconectar com o “estar-no-mundo” de forma mais primordial, menos mediada pelas demandas do “eles”. A vila oferece o espaço para esse experimento existencial.

O drama brilha ao mostrar que essa busca por solidez e autenticidade não é um passeio romântico. Angok tem suas próprias regras rígidas, e aqui entram algumas observações que julgo essenciais para compreender o âmago da obra. A primeira é: a obediência aos mais velhos, essa hierarquia que pode nos causar estranheza, é justamente a outra face da comunidade sólida. Se em Seul a liquidez trazia solidão, aqui a solidez traz, por vezes, uma pressão coletiva que também pode ser asfixiante. A beleza narrativa está em mostrar que a cura não está em trocar um extremo pelo outro, mas em encontrar um ponto de equilíbrio dentro dessa rede. Yeo-reum e o bibliotecário Ahn Dae-beom (muito bem interpretado por Im Si-wan) são dois estranhos nesse tecido, aprendendo a navegá-lo.

Falando em Dae-beom, ele é o espelho sombrio de Yeo-reum. Enquanto ela foge da liquidez das relações, ele é um refugiado do trauma, congelado no tempo. Sua solidão é uma fortaleza. O romance que floresce entre eles é essencialmente cristalino, do meu ponto de vista, justamente porque não é sobre paixão líquida e instantânea, mas sobre reconhecimento. Eles se veem mutuamente em suas feridas e, sem pressa, oferecem um porto seguro um ao outro. É a construção de um vínculo sólido, tijolo por tijolo, confissão por confissão silenciosa.

Quando assisti a essa minissérie, lembro de ter achado todas as atuações críveis, humanas. Até o cachorro é bom ator (rsrs). Esse elenco coeso nos presenteia com personagens secundários incríveis, que fogem dos estereótipos. Eles são a representação da comunidade em sua complexidade: fofoqueiros, mas capazes de grande calor; intrometidos, mas presentes na hora da necessidade. Eles ensinam, mesmo com seus defeitos, que pertencer também é um antídoto para a liquidez existencial. Aprendemos, com Yeo-reum, a diferença entre solidão imposta pelo mundo líquido e solitude,  escolhida e reparadora.

Por fim, Summer Strike é um drama sobre renascimento. Ele não nega a dor, o luto ou a crueldade humana (e como mostra atrocidades cometidas em nome de um amor doentio!). Ele apenas insiste que, mesmo após as piores dores, a vida pode ser reinventada a partir de gestos mínimos. Mostra-nos que somos, de fato, criaturas confusas, muitas vezes egoístas, outras vezes empáticas demais. Mas que a maioria de nós está, no fundo, apenas tentando acertar e encontrar um pouco de paz.

É por essa profundidade silenciosa que me espelho tanto nesse dorama e me pergunto por que ele é tão esquecido. Eu o achei por acaso no catálogo da Netflix e, até o momento, não conheço ninguém que o tenha assistido. Talvez sua revolução seja tranquila demais para os catálogos barulhentos, mas, para quem já se sentiu esgotada pela vida líquida, para quem busca um retrato honesto da cura e da complexidade das relações humanas, Summer Strike não é apenas uma minissérie. É um suspiro profundo, um lembrete de que, às vezes, parar não é desistir. É só o primeiro passo para voltar a andar em direção a si mesmo. Para mim, segue sendo uma obra-prima discreta que desejo que você descubra e também celebre.

Abraço e até a próxima, 

Elôh Santos🌞 

🎬CLAQUETE: 

Titulo original: 아무것도 하고 싶지 않아 
Título nacional : Não Quero Fazer Nada 
Titulo em Inglês: Summer Strike
Direção: Lee Yoon-jung e Hong Moon-pyo
Ano: 2022 ( Coreia do Sul ) 
Gênero: Drama
Duração: 12 episódios.
Onde assistir: Netflix | Prime Video 

domingo, 4 de janeiro de 2026

A Maldição da Casa das Flores: uma casa com alma, história e fechaduras enferrujadas

Lançado no Brasil pela editora Astral Cultural em 2024, A Maldição da Casa das Flores (original She Is a Haunting), de Trang Thanh Tran, chegou com a credencial de best-seller do The New York Times e uma premissa que é um convite irrecusável para mim, uma sedenta fã de terror inteligente. A ideia de uma casa colonial francesa no Vietnã que é, ela mesma, uma entidade faminta e cheia de rancor histórico é simplesmente brilhante, eu achei. Fiquei genuinamente ansiosa para explorar cada corredor sombrio e desvendar segredos familiares e sobrenaturais. A promessa era de um terror gótico mesclado com uma crítica profunda ao colonialismo, e abri o livro com enorme expectativa.

Confesso, porém, que minha jornada por essa casa visceralmente florida foi como caminhar por seus próprios corredores: muita neblina e sombras que, por vezes, atrapalham mais do que revelam. Continuo concordando com minha avaliação prévia de que se trata de uma premissa brilhante, mas agora entendo também que a execução ficou aquém. A escrita de Trang, em diversos momentos, peca por ser excessivamente contemplativa e etérea. Certas cenas de terror ou revelações são narradas com uma abstração que, em vez de construir clima, dispersa o entendimento. É preciso reler parágrafos, virar páginas para trás, e nem sempre a recompensa clareia o caminho.

Esse efeito de “névoa literária” se intensifica com outro ponto que me gerou dificuldade: a inserção de palavras vietnamitas sem tradução direta. Entendo e valorizo profundamente o desejo de autenticidade, de mergulhar o leitor na cultura. Porém, quando o contexto geral já é deliberadamente vago e onírico, presumir o significado de termos específicos vira uma camada extra de quebra-cabeça. Sinto que, como leitora, perdi nuances emocionais e culturais importantes porque estava muito ocupada tentando decifrar o básico da ação e do diálogo.



Não me entendam mal: os alicerces desta casa são fortíssimos. A ideia de que a própria arquitetura é um fantasma, um parasita que se alimenta de memórias e traumas coloniais, é genial. A crítica social é o ponto mais alto da obra. Ver a história da ocupação francesa materializada em azulejos, madeira e uma fome sobrenatural deu um peso visceral à narrativa, elevando-a muito além de um simples fantasma no sótão. Essa camada de realismo histórico é o que faz o livro valer a pena, dando profundidade e um horror verdadeiramente perturbador.

Mas, como uma casa com a pintura descascando, a execução não sustenta totalmente a grandiosidade da estrutura. A trama, repleta de segredos familiares e revelações sobrenaturais, acaba se perdendo em suas próprias camadas confusas. Em vez de uma tensão crescente e clara, temos picos de confusão. A sensação final é a de que precisamos trabalhar demais para juntar os cômodos da história, quando o fluxo natural da leitura deveria nos guiar pela mão, mesmo que tremendo de medo.

No fim das contas, minha experiência foi de admiração e frustração em doses quase iguais. É um livro ambicioso, que tenta e consegue falar de coisas importantes com uma voz própria, mas tropeça na própria ambição narrativa. Recomendo para leitores pacientes, que não se importam em navegar por águas turvas em troca de uma recompensa temática poderosa. Para quem busca um terror mais direto e atmosférico, pode ser uma leitura um pouco cansativa. Essa casa com suas flores é, de fato, assombrada, mas talvez por um excesso de ideias boas que não encontraram a janela certa para entrar.

Um último adendo: ainda que não existam notas de rodapé com tradução dos termos vietnamita, a edição não peca em beleza . A diagramação está muito bem feita e a capa é simplesmente belíssima . 

Grande abraço e até a próxima ! 🥀

Elôh Santos