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sábado, 16 de maio de 2026

Talvez você deva conversar com alguém: não é autoajuda, é um choque de realidade emocional


Sinto que devo não só falar sobre este livro, mas também indicá-lo. E, para indicar, preciso antes confessar que  comecei essa leitura com uma soberba típica de quem já leu alguns livros de autoajuda e não costuma tê-los em boa consideração. Sim, as vezes me sinto aquele  tipo de leitora que lê só para falar mal com propriedade. Mas este livro me desmontou em menos de cinquenta páginas.

Lori Gottlieb, a autora, é uma terapeuta experiente e também uma humana comum, com o coração partido. A grande sacada do livro Talvez Você Deva Conversar com Alguém é derrubar a fantasia de que existem pessoas emocionalmente resolvidas e pessoas “quebradas”. Tudo começa quando ela, após um término devastador, fica tão desorientada que precisa procurar terapia. É como um mecânico cujo próprio carro quebra no meio da estrada: constrangedor, inevitável e meio engraçado (no sentido trágico). O sofrimento não respeita currículo, inteligência ou diplomas na parede.

O livro constrói um espelho triplo: Lori escuta seus pacientes, o terapeuta dela (Wendell) escuta Lori, e nós, leitores, escutamos todo mundo enquanto reconhecemos, com vergonha e alívio, nossos próprios truques mentais. Os pacientes formam uma galeria do desespero cotidiano: uma jovem terminal, um produtor de Hollywood cuja arrogância esconde solidão, uma recém-casada presa em padrões autodestrutivos. Cada história é um soco controlado, sem pieguice. O que dói mesmo não é só o que aconteceu, mas o roteiro rígido que criamos sobre o que aconteceu.

Essa ideia das narrativas internas genuinamente me interessa. O livro mostra que muitas vezes não sofremos pelos fatos em si, mas pela história que insistimos em contar para nós mesmos. Uma história que organiza o caos e, ao mesmo tempo, nos aprisiona. Lori enxerga nos pacientes padrões dignos de um detetive, mas é completamente cega para suas próprias armadilhas. A terapia não aparece como um lugar mágico de respostas instantâneas: há vergonha, projeção, resistência. E humor. Um humor ácido, daquele que faz rir para não chorar.


Wendell, o terapeuta de Lori, merece um parágrafo só para ele. Não espere o sábio imaculado. Ele é irônico, cansado, afetuoso em momentos inesperados e meio desajeitado. É nessa humanidade que mora a verdade mais generosa do livro: o vínculo terapêutico não precisa de perfeição, precisa de presença. Lori descobre que, às vezes, a dor não vem apenas da perda, mas do colapso da imagem que tínhamos da nossa própria vida. O término desorganiza o amor, mas também desorganiza a identidade. Quem sou eu sem o roteiro que eu mesma escrevi? Essa pergunta persegue cada personagem.  E nós, leitores, também.

Por fim, este livro só reforçou a minha percepção de que conversar com alguém é algo imprescindível. E essa leitura nos ajuda a enxergar isso não como fracasso, mas como ato de coragem. Ele não transforma sofrimento em estética, nem terapia em uma religião clean de autocuidado. Não é um livro “fofinho”: por vezes é vagaroso de forma proposital, em outras tantas, quase humilhante . E é por isso que funciona.

Assim, meu convite é: leia Talvez Você Deva Conversar com Alguém. Depois, busque alguém com quem você possa conversar de verdade, e vá sem roteiros. Porque, se tem uma coisa que este livro ensina, é que os melhores roteiros são aqueles que a gente tem coragem de rasgar.

Abraço e até a próxima!

Elôh Santi



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