Sabe quando um livro chega até você não por acaso, mas porque várias pessoas que você admira resolveram compartilhar? Foi mais ou menos assim que Amêndoas caiu nas minhas mãos. E, acredito, nas de meio mundo também. O romance sul-coreano de Won-pyung Sohn virou fenômeno global depois que membros do BTS foram vistos com ele, e confesso que, no começo, fiquei com um pé atrás. Será que era só efeito do amor intenso army?
Mas bastou começar a leitura para entender: o sucesso não se explica apenas pela narrativa sensível, e sim pela forma como toca algo que todo mundo vive, mas quase ninguém sabe nomear... aquela sensação de, às vezes, não conseguir sentir direito. E o protagonista Yunjae, que tem alexitimia, me fez companhia nessa estranheza de um jeito que eu não esperava.
A história é contada em primeira pessoa por esse garoto que simplesmente não reconhece emoções. Não por falta de vontade, mas porque seu cérebro funciona assim. Medo, raiva, amor são palavras abstratas, como tentar explicar a cor azul para quem nunca a viu. E é aí que entra uma das coisas que mais me tocou: a mãe e a avó de Yunjae, mesmo sem entenderem completamente o que ele vive, criam um ambiente que o psicanalista Donald Winnicott chamaria de “suficientemente bom”.
Não é um lar perfeito, cheio de abraços calorosos e conversas profundas. É mais um alicerce: elas ensinam regras sociais, gestos, frases prontas , quase um manual de sobrevivência emocional. E, por mais engessado que isso pareça, funciona como um colchão macio que impede que ele se espatife no chão duro do mundo.
Só que a vida, essa senhora sem noção, resolve rasgar esse colchão com um ato violento que tira a mãe e a avó de cena. De repente, Yunjae fica sem a única estrutura que sustentava sua existência. Pela lente winnicottiana, isso seria uma falha no holding: uma ruptura tão brusca que qualquer um se perderia, imagine alguém que já nasce com dificuldade de reconhecer o próprio chão emocional.
O vazio que se instala nele não é tristeza, nem depressão. É um desamparo tão puro que chega a doer em quem lê, porque a gente percebe: sem a presença do outro que nos sustenta, fica quase impossível se sentir real. Yunjae, então, tenta simular o que esperam dele: um sorriso aqui, um “tudo bem”... criando o que Winnicott chamaria de falso self adaptativo. Ele age como alguém que sente, mas por dentro é só um eco.
E é aí que o livro me pegou de jeito. Porque a virada não vem de um milagre nem de uma cura mágica. Vem de Gon, um garoto problemático, explosivo, que entra na vida de Yunjae como um impacto inevitável. À primeira vista, eles não têm nada em comum. Gon sente demais, transborda, quebra. Yunjae não sente quase nada.
Nesse encontro estranho, algo começa a se reconstituir. A relação entre eles não é materna nem terapêutica, é relacional no sentido mais bruto do termo. Um sujeito se constrói na presença do outro, mesmo quando esse outro é um furacão desajeitado. Yunjae começa a mudar não porque aprendeu a sentir, mas porque foi sustentado por alguém que, mesmo sem saber, fez as vezes de chão.
A escrita da autora é tão econômica quanto o narrador: direta, sem firulas, quase fria em alguns momentos. E isso é um acerto, porque a forma reflete o conteúdo. A gente lê sobre alguém que não sente em um texto que também não se entrega ao sentimentalismo fácil.
Claro, o livro não é perfeito. Alguns personagens secundários desaparecem cedo demais, e certas reviravoltas são tão abruptas que parecem nos cutucar: “olha, aqui é pra você refletir”. A evolução de Yunjae também pode soar rápida para quem prefere transformações mais graduais. Ainda assim, essa pressa meio desajeitada combina com a proposta. Afinal, a vida também não pede licença para acontecer.
No fim, Amêndoas me deixou com uma pergunta insistente: o que define nossa humanidade? A capacidade de sentir ou a possibilidade de se relacionar, mesmo quando não se sente nada?
Talvez a resposta esteja menos no que sentimos sozinhos e mais no que conseguimos construir com o outro, ainda que essa construção seja frágil, torta, cheia de arestas. Mesmo que, como Yunjae, a gente aprenda primeiro a simular um sorriso antes de, quem sabe, esbarrar em um verdadeiro.
E isso, pra mim, é um alívio. Porque significa que não precisamos de um coração perfeito para nos conectarmos com alguém. Às vezes, só precisamos de uma mão estendida. Ou de um amigo que não sabe o que é amor, mas decide ficar mesmo assim.
Abraço e até a próxima,
Eloh Santi

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