E são nesses vazios deixados por essas relações ocas que o xadrez sempre entra na jornada da Beth. Nem sempre só como campo de dominação e controle, mas também pertencimento. Como se Beth dissesse, sem palavras: “se alguém não pode me sustentar, talvez essas peças possam”.
E os homens… ah, os homens. Benny Watts, Harry Beltik, D. L. Townes… não são exatamente amores, são superfícies. Espelhos onde Beth tenta se encontrar, mas que devolvem sempre um reflexo incompleto. Freud chamaria isso de repetição, aquela insistência meio teimosa do psiquismo em revisitar o que não foi elaborado, na esperança (quase ingênua) de, dessa vez, dar certo.
Mas não dá. Ou não dá do jeito que ela espera.
E então chegamos nela: a verdinha. (Se você começou a ouvir um reggaezinho aí, eu respeito, mas volta comigo.). As pílulas são mais do que vício, são vínculo. Um elo direto com a mãe biológica, com o primeiro contato com o xadrez, com a ideia de que o brilho vem junto com a anestesia. É quase uma equação inconsciente: sofrer menos = funcionar melhor. Só que o preço disso… é ir se afastando de si mesma.
E aqui entra uma das coisas mais bonitas (e doloridas) da série: Beth não está tentando vencer o mundo. Ela está tentando não desmoronar.
Cada recaída, cada autossabotagem, cada gole a mais ou comprimido a mais, não é fraqueza pura e simples. É repetição. É o psiquismo dizendo: “isso aqui eu conheço, mesmo que doa”. Porque o desconhecido, ainda que saudável, também assusta.
Até que, aos poucos, algo muda. Não de forma grandiosa, não com música épica de fundo. Mas num deslocamento quase silencioso: Beth começa a jogar sem precisar se apagar. Começa a existir sem precisar se anestesiar. E isso, na lógica psicanalítica, é enorme. É quando o sujeito deixa de ser refém da repetição e ensaia, ainda que timidamente, uma escolha.
O final… ah, o final.
Ela jogando sozinha, sorrindo, não é sobre solidão. É sobre integração. Pela primeira vez, não tem fuga, não tem muleta, não tem espelho. Só ela inteira o suficiente pra sustentar o próprio jogo. E isso vale mais do que qualquer xeque-mate.
Minha humilde opinião? O Gambito da Rainha é aquele tipo de história que fica. Não só pela estética impecável ou pelo figurino que dá vontade de usar até pra comprar pão, mas porque cutuca um lugar que a gente reconhece, mesmo fingindo que não. E Anya Taylor-Joy constrói uma Beth que não pede que a gente goste dela, pede que a gente a enxergue. E pode não parecer… mas isso às vezes é bem mais difícil.
No fim, Beth Harmon me deixa com uma sensação meio incômoda e meio bonita: a de que todo mundo, em algum nível, já tentou organizar o caos interno com pequenas “pílulas emocionais”. Algumas mais discretas, outras nem tanto. Mas entre um esbarrão ou outro, a gente vai entendendo que crescer é aprender a jogar mesmo quando as peças no tabuleiro não nos são favoráveis.
Xeque-mate, Freud.



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