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domingo, 20 de abril de 2025

Onde guardar o caos? Beth Harmon em 64 casas

Olha… se alguém me dissesse que um dia eu deitaria Sigmund Freud no mesmo divã que um tabuleiro de xadrez, eu provavelmente riria até derrubar todas as peças. Mas cá estamos nós, porque O Gambito da Rainha não é sobre xadrez, mas sim,  sobre aquilo que a gente tenta organizar quando por dentro tudo já começou quebrado.

E na séria a Beth Harmon não entra em cena,  ela é lançada. Quase como um peão jogado no meio da partida sem manual, sem estratégia e, convenhamos, sem muita chance de sobrevivência emocional. Órfã, filha de uma mãe que já vivia à beira de um colapso (ou dentro dele), ela cresce num orfanato que mais parece um laboratório silencioso de recalques. E aí entram as pílulas verdes… aquelas pequenas cápsulas que não só acalmam, mas ensinam uma coisa perigosa: que sentir menos pode ser uma forma de sobreviver.

Se Freud estivesse ali, talvez não escrevesse um tratado, escreveria vários.
Porque o que Beth faz com o xadrez não é só jogar. Ela sublima. O tabuleiro vira uma espécie de aparelho psíquico portátil: tudo ali tem regra, tem limite, tem começo, meio e fim. Diferente da vida dela, que parece um sonho mal recalcado voltando sem aviso. No xadrez, ela cria uma ilusão de domínio. E, olha, não é pouca coisa. Controlar 64 casas quando a própria mente é um território em guerra… é quase um ato de resistência.

Mas é típico da  psicanálise nunca para no trauma. Todo bom psicanalista sempre  cutucará mais fundo, como quem sabe que a ferida gosta de se disfarçar. E eu teimo em olhar a Beth  como um sujeito que não busca só vencer, ela busca alguém. Ou melhor: alguma coisa que ocupe o lugar de um cuidado que nunca foi consistente. A  Alma Wheatley aparece como essa mãe possível, meio improvisada, meio quebrada também. E é curioso… porque não é uma substituição que cura, é uma que ecoa. Alma não resolve o vazio de Beth, ela dialoga com ele, às vezes até o amplifica, como quem também busca um jeito de escapar da vida.



E são nesses vazios deixados por essas relações ocas que o xadrez sempre entra na jornada da Beth. Nem sempre só como campo de dominação e controle, mas também pertencimento. Como se Beth dissesse, sem palavras: “se alguém não pode me sustentar, talvez essas peças possam”.

E os homens… ah, os homens. Benny Watts, Harry Beltik, D. L. Townes… não são exatamente amores, são superfícies. Espelhos onde Beth tenta se encontrar, mas que devolvem sempre um reflexo incompleto. Freud chamaria isso de repetição, aquela insistência meio teimosa do psiquismo em revisitar o que não foi elaborado, na esperança (quase ingênua) de, dessa vez, dar certo.

Mas não dá. Ou não dá do jeito que ela espera.

E então chegamos nela: a verdinha. (Se você começou a ouvir um reggaezinho aí, eu respeito, mas volta comigo.). As pílulas são mais do que vício, são vínculo. Um elo direto com a mãe biológica, com o primeiro contato com o xadrez, com a ideia de que o brilho vem junto com a anestesia. É quase uma equação inconsciente: sofrer menos = funcionar melhor. Só que o preço disso… é ir se afastando de si mesma.

E aqui entra uma das coisas mais bonitas (e doloridas) da série: Beth não está tentando vencer o mundo. Ela está tentando não desmoronar.

Cada recaída, cada autossabotagem, cada gole a mais ou comprimido a mais, não é fraqueza pura e simples. É repetição. É o psiquismo dizendo: “isso aqui eu conheço, mesmo que doa”. Porque o desconhecido, ainda que saudável, também assusta.

Até que, aos poucos, algo muda. Não de forma grandiosa, não com música épica de fundo. Mas num deslocamento quase silencioso: Beth começa a jogar sem precisar se apagar. Começa a existir sem precisar se anestesiar. E isso, na lógica psicanalítica, é enorme. É quando o sujeito deixa de ser refém da repetição e ensaia, ainda que timidamente, uma escolha.



O final… ah, o final.

Ela jogando sozinha, sorrindo, não é sobre solidão. É sobre integração. Pela primeira vez, não tem fuga, não tem muleta, não tem espelho. Só ela inteira o suficiente pra sustentar o próprio jogo. E isso vale mais do que qualquer xeque-mate.

Minha humilde opinião? O Gambito da Rainha é aquele tipo de história que fica. Não só pela estética impecável ou pelo figurino que dá vontade de usar até pra comprar pão, mas porque cutuca um lugar que a gente reconhece, mesmo fingindo que não. E Anya Taylor-Joy constrói uma Beth que não pede que a gente goste dela, pede que a gente a enxergue. E pode não parecer… mas isso às vezes é bem mais difícil.

No fim, Beth Harmon me deixa com uma sensação meio incômoda e meio bonita: a de que todo mundo, em algum nível, já tentou organizar o caos interno com pequenas “pílulas emocionais”. Algumas mais discretas, outras nem tanto. Mas entre um esbarrão ou outro, a gente vai entendendo que crescer é aprender a jogar mesmo quando as peças no tabuleiro não nos são favoráveis.

Xeque-mate, Freud.


🎬CLAQUETE :

Título original: The Queen’s Gambit
Criadores: Scott Frank e Allan Scott
Ano: 2020 (1 temporada com 7 episódios)
Onde assistir: Netflix


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