Quero falar deste achado que eu mesma não esperava muito. Comprei o livro na Amazon porque estava baratinho e a premissa parecia interessante: ver todo o bafafá da Cinderela pela perspectiva de sua “irmã feia”. Já posso afirmar, de início, que o livro é deveras interessante do começo ao fim. Vou esmiuçar por que cheguei a essa conclusão.
Em Confissões de uma Irmã de Cinderela, de Gregory Maguire, a narrativa clássica é virada de cabeça para baixo, como um espelho que reflete não a princesa, mas a sombra esquecida ao seu lado.
Trata-se de uma história contada pela irmã postiça de Cinderela, como já mencionado. Nesse romance, Maguire expõe as entranhas de um conto de fadas que sempre glorificou a virtude, mas silenciou a complexidade humana. Aqui, a “vilã” ganha voz, e sua confissão se revela um labirinto de inveja, culpa e desespero. Uma metáfora poderosa sobre como os contos infantis podem aprisionar personagens em arquétipos rígidos, negando-lhes o direito à nuance.
Você lerá um livro em que a protagonista-narradora, Iris, não pede perdão nem favor; ela exige compreensão. Sua linguagem é ácida, oscilando entre a autopiedade e a autocrítica, como um rio que carrega folhas apodrecidas e pétalas sensíveis de rosa ao mesmo tempo. E aqui não consigo olhar essa história sem que a psicanálise seja trilho, pois vejo em Iris uma personagem feminina dilacerada pelo desejo de ser amada e pelo ódio imposto de nunca ser suficiente. A rivalidade com Cinderela, que nesta história se chama Clara, tem muito mais a ver consigo mesma do que com essa “irmã perfeita”. Essa rivalidade me pareceu, na verdade, o reflexo de seu próprio vazio, causado por um mundo que impõe limites onde só deveria existir liberdade.
A casa onde Iris, Ruth (a outra irmã postiça) e Clara convivem e são educadas não é um lar, mas um palco de aparências. Essas meninas são doutrinadas para competir, não para se amar, e cada gesto materno parece um cálculo disfarçado de afeto. A madrasta de Cinderela, distante da caricatura malvada, é retratada como uma mulher ferida, consumida pela solidão e pela obsessão por status. Uma figura que espelha a sociedade que a condena. A relação entre Iris, Ruth e Clara é permeada por ciúmes e culpa, como raízes entrelaçadas que sufocam e se sustentam ao mesmo tempo. Contraditório? Sim. Mas estamos falando de relações humanas moldadas por um sistema social opressor, misógino e mascarado.
Também gostei de como o autor subverte símbolos: o icônico sapato de cristal ganha novas camadas de significado. Não é mais um sinal do destino, mas do fracasso. Para Iris, ele representa tudo o que ela não pode calçar: perfeição, aceitação, pureza. Para Clara, a certeza de um destino digno do “felizes para sempre”. Maguire transforma um sapato em uma singela cela de vidro, com grades transparentes e sorrateiramente cortantes.
Assim, esse “feliz achado” se mostrou para mim mais do que uma revisão do conto da Cinderela: é uma história sobre a sombra que todos carregamos, a parte de nós que inveja, que erra, que não se encaixa, mas que possui motivos plausíveis. A obra desafia o leitor a perguntar: quantas “vilãs” foram criadas por contos que as obrigaram a ser más? E quantas Cinderelas foram aprisionadas em sua própria perfeição?
No fim, o livro não destrói o conto de fadas; ele o humaniza, mostrando que até os finais felizes podem deixar cicatrizes profundas. É uma narrativa que usa os escombros de um mito para construir uma ponte entre o ideal e o real, entre o que somos e o que o mundo nos obriga a ser. Imperdível para quem busca histórias que não temem sujar as mãos com folhas apodrecidas enquanto garimpam suas pétalas. E assim, encontram beleza na imperfeição.
Grande abraço e até a próxima!
Elôh Santos
Páginas: 392 ✦ Ano: 2006 ✦ Editora: José Olympio

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