Lançado em 2022 na Coreia do Sul, sob a direção de Lee Yoon-jung, Summer Strike (ou Não Quero Fazer Nada, título dado no Brasil) é muito mais do que um simples K-drama de cura ou romance com essa intenção. Vejo nessa obra um retrato delicado e profundo de um mal-estar contemporâneo: o esgotamento total da alma diante das demandas de um mundo que valoriza apenas o desempenho. A temática principal gira em torno da fuga, não como covardia, mas como ato de sobrevivência, e da reconstrução de uma vida a partir do zero, dos fragmentos que sobram após uma série de perdas.
Nossa protagonista, Lee Yeo-reum, (docemente interpretada por Kim Seol-hyun) é a personificação desse esgotamento. Quando a conhecemos, ela é uma jovem aparentemente comum em Seul, mas carrega um peso invisível: a perda repentina da mãe, um relacionamento traiçoeiro e um ambiente de trabalho tóxico e assediador. Yeo-reum não está simplesmente triste; ela está esvaziada. Sua passividade diante da injustiça do irmão, que fica com os bens da mãe e ainda cobra um anel, não é fraqueza, mas o sintoma de alguém que já não tem forças nem para a própria raiva. Ela está em estado de anomia, um vazio de normas e sentidos que a orientem. Seu colapso é a porta de entrada para a história.
A decisão radical de Yeo-reum de se mudar para a vila costeira de Angok e “não fazer nada” é o cerne da análise. É aqui que o pensamento do sociólogo Zygmunt Bauman ilumina as discussões que quero elaborar a partir da narrativa. Yeo-reum está fugindo da “modernidade líquida”. Sua vida em Seul era feita de relações frágeis (o namorado infiel, colegas de trabalho indiferentes), de um trabalho sem propósito e de uma identidade definida apenas por sua produtividade. Tudo era volátil, descartável, sem peso. Angok, ao contrário, representa o sólido: um lugar com ruas de terra, rostos conhecidos, uma rotina previsível ligada às marés. Sua “greve” é uma greve contra a liquidez. Ela não quer mais ser um fluido que se adapta a qualquer recipiente (as expectativas sociais); ela quer se tornar uma pedra, encontrar seu próprio formato.
Paralelamente, a filosofia de Martin Heidegger nos ajuda a entender a profundidade dessa busca. Yeo-reum, ao parar, está tentando escapar do modo de existência inautêntico, do “ser-para-os-outros”. Em Seul, ela era o que os outros esperavam: uma boa funcionária, uma namorada presente. Em Angok, ela pode tentar se aproximar de um “ser-para-si” autêntico. As cenas longas e quase contemplativas dela simplesmente existindo, seja tomando café, olhando o mar ou só caminhando, são uma tentativa de se reconectar com o “estar-no-mundo” de forma mais primordial, menos mediada pelas demandas do “eles”. A vila oferece o espaço para esse experimento existencial.
O drama brilha ao mostrar que essa busca por solidez e autenticidade não é um passeio romântico. Angok tem suas próprias regras rígidas, e aqui entram algumas observações que julgo essenciais para compreender o âmago da obra. A primeira é: a obediência aos mais velhos, essa hierarquia que pode nos causar estranheza, é justamente a outra face da comunidade sólida. Se em Seul a liquidez trazia solidão, aqui a solidez traz, por vezes, uma pressão coletiva que também pode ser asfixiante. A beleza narrativa está em mostrar que a cura não está em trocar um extremo pelo outro, mas em encontrar um ponto de equilíbrio dentro dessa rede. Yeo-reum e o bibliotecário Ahn Dae-beom (muito bem interpretado por Im Si-wan) são dois estranhos nesse tecido, aprendendo a navegá-lo.
Falando em Dae-beom, ele é o espelho sombrio de Yeo-reum. Enquanto ela foge da liquidez das relações, ele é um refugiado do trauma, congelado no tempo. Sua solidão é uma fortaleza. O romance que floresce entre eles é essencialmente cristalino, do meu ponto de vista, justamente porque não é sobre paixão líquida e instantânea, mas sobre reconhecimento. Eles se veem mutuamente em suas feridas e, sem pressa, oferecem um porto seguro um ao outro. É a construção de um vínculo sólido, tijolo por tijolo, confissão por confissão silenciosa.
Quando assisti a essa minissérie, lembro de ter achado todas as atuações críveis, humanas. Até o cachorro é bom ator (rsrs). Esse elenco coeso nos presenteia com personagens secundários incríveis, que fogem dos estereótipos. Eles são a representação da comunidade em sua complexidade: fofoqueiros, mas capazes de grande calor; intrometidos, mas presentes na hora da necessidade. Eles ensinam, mesmo com seus defeitos, que pertencer também é um antídoto para a liquidez existencial. Aprendemos, com Yeo-reum, a diferença entre solidão imposta pelo mundo líquido e solitude, escolhida e reparadora.
Por fim, Summer Strike é um drama sobre renascimento. Ele não nega a dor, o luto ou a crueldade humana (e como mostra atrocidades cometidas em nome de um amor doentio!). Ele apenas insiste que, mesmo após as piores dores, a vida pode ser reinventada a partir de gestos mínimos. Mostra-nos que somos, de fato, criaturas confusas, muitas vezes egoístas, outras vezes empáticas demais. Mas que a maioria de nós está, no fundo, apenas tentando acertar e encontrar um pouco de paz.
É por essa profundidade silenciosa que me espelho tanto nesse dorama e me pergunto por que ele é tão esquecido. Eu o achei por acaso no catálogo da Netflix e, até o momento, não conheço ninguém que o tenha assistido. Talvez sua revolução seja tranquila demais para os catálogos barulhentos, mas, para quem já se sentiu esgotada pela vida líquida, para quem busca um retrato honesto da cura e da complexidade das relações humanas, Summer Strike não é apenas uma minissérie. É um suspiro profundo, um lembrete de que, às vezes, parar não é desistir. É só o primeiro passo para voltar a andar em direção a si mesmo. Para mim, segue sendo uma obra-prima discreta que desejo que você descubra e também celebre.
Abraço e até a próxima,
Elôh Santos🌞
🎬CLAQUETE:
Ano: 2022 ( Coreia do Sul )
Gênero: Drama
Duração: 12 episódios.
Onde assistir: Netflix | Prime Video


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Dorama pouquíssimo falado mesmo. Assistir por indicação de minha psicóloga, e foi uma experiência maravilhosa. Eu recomendo.
ResponderExcluirAh! Legal a recomendação de sua psicóloga , e que bom que se tornou uma experiência válida para você.
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