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segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Casas Estranhas: uma visita interessante, mas menos opressiva do que eu esperava


Cheguei a “Casas Estranhas” com o coração cheio de expectativas, ou melhor, com um trampolim emocional já ajustado para saltar a alturas estratosféricas, pois eu já havia me tornado admiradora do Uketsu depois de ler “Imagens Estranhas”. Como essa primeira experiência foi visceral e sombria, acabei, sem querer, ajustando meu nível de exigência para o modo “ao infinito e além”. E posso dizer: gostei deste novo livro, mas confesso que aterrissei com um pouco de trepidação, porque a viagem foi diferente da que imaginei. Mas explico...

Se “Imagens Estranhas” era como assistir a um filme de terror em que cada quadro pingava suspense, “Casas Estranhas” me pareceu mais como visitar um labirinto de espelhos dentro de uma casa mal-assombrada temática. A premissa é incrivelmente interessante: casas que mudam, cômodos que respiram e regras da realidade que amolecem como manteiga ao sol. A construção é criativa e o mistério, nos primeiros atos, é denso e realmente intrigante.

No entanto, cheguei a um ponto da narrativa em que me senti como um hamster de laboratório preso em uma roda giratória. Quando o cerne do mistério, os tais “porquês” daquela realidade distorcida, começa a ficar mais claro, a sensação de descoberta perde o gás. É como se o autor tivesse me mostrado a engrenagem principal do relógio maluco e, a partir daí, observar os ponteiros girarem se tornou um processo mais mecânico. Quanto menos tempo você leva para decifrar essa engrenagem, mais a imersão escapa pelos vãos do assoalho.

Um elemento que, paradoxalmente, me tirava um pouco do fluxo era a sapiência do Kurihara. Nossa, como esse homem acerta tudo! Suas deduções são tão certeiras e surgem com uma facilidade tão desconcertante que, em vez de admiração, às vezes eu sentia uma coceira de irritação. Era como ter um Sherlock Holmes de conveniência dentro da história, desvendando os nós narrativos com uma agilidade que quase banalizava o perigo.


Felizmente, os demais personagens me conquistaram. Eles eram mais orgânicos, mais vulneráveis e, portanto, mais interessantes de acompanhar. Suas reações de medo, perplexidade e coragem frágil eram o verdadeiro motor humanista da trama. A dinâmica da dupla, tentando sobreviver à lógica delirante das casas, foi o que segurou minha atenção e simpatia até o final. A história, de fato, é boa e possui momentos de genuína inventividade e tensão.

Mas acredito que eu tenha me prejudicado ao ficar comparando com a obra anterior. “Imagens Estranhas”, mesmo com seus próprios gênios dedutivos, era banhado por uma atmosfera mais opressiva e sombria; eu não desgrudei das páginas. A régua estava lá em cima, e “Casas Estranhas”, embora sólida e divertida, não conseguiu (para mim) atingir o mesmo pico de ansiedade literária.

No balanço final, minha jornada por essas casas foi uma visita de respeito, com bons sustos e quebra-cabeças mentais satisfatórios. Saí contente, mas sem a necessidade urgente de recomendar a todos como algo transformador. Uketsu continua sendo um autor fantástico, mas, desta vez, acho que entrei na casa com os pés leves demais, esperando um baile tenebroso, e acabei saindo de uma festa à fantasia inteligente.  Um pouco menos assustadora do que eu ansiava, mas ainda assim memorável. E sim, vale o tempo dedicado.

Abraço e até a próxima, 

Elôh Santos 





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