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quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Os Rejeitados: a melancolia como ponto de encontro no Natal

Ao mergulhar em Os Rejeitados (2023), filme dirigido por Alexander Payne, fui imediatamente transportada para um Natal melancólico ambientado nos anos 70.  A neve acinzentada de Nebraska é mais do que cenário; é um estado de alma, um espelho do vazio que os três personagens centrais carregam. Paul, Angus e Mary não são heróis tradicionais, mas náufragos de um mesmo naufrágio social, lançados à deriva num período em que a promessa do “sonho americano” começava a rachar.

O filme não os julga; observa-os com uma lupa dolorosa e compassiva, permitindo que suas feridas respirem e, finalmente, conversem entre si.

E preciso falar desse filme sob uma ótica psicanalítica. Primeiro porque não seria eu se assim não o fizesse; segundo, porque isso aqui é ouro deitado num divã. Psicanaliticamente, vejo cada um desses três personagens como um sintoma ambulante. Paul, o professor prepotente, é puro recalque: enterra sua mediocridade e solidão sob uma couraça de arrogância intelectual. Angus, o jovem problemático, atua suas dores por meio da delinquência, um ato falho contínuo que grita o abandono que ele não consegue nomear. Mary Lamb, uma mãe dilacerada em seu luto congelado, carrega uma suposta altivez que é, na verdade, uma projeção imposta pelos outros sobre seu desespero silencioso. Eles são ilhas de fracasso até que o acidente, literal e metafórico, rasga a superfície de suas normalidades.

O que os une não é a simpatia instantânea, mas o reconhecimento mútuo de suas fissuras. A psicanálise nos fala do sintoma: aquilo que nos faz sofrer, mas também nos constitui. Nessa viagem forçada, eles são obrigados a enxergar no outro o próprio sintoma refletido. A dor de Angus espelha a solidão não admitida de Paul; a vulnerabilidade crua de Mary desarma a farsa de ambos. A conexão nasce não do amor, mas do espanto: “Ah, você também carrega isso?”. É como se a ferida, finalmente, encontrasse seu próprio idioma.


O contexto do Natal nos anos 70 não é mero detalhe nostálgico; é ironia pura. Enquanto o mundo celebra a união familiar e a prosperidade, nossos protagonistas estão à margem, deserdados desse banquete simbólico. O período pós-Vietnã e pré-AIDS cria um limbo histórico perfeito, onde as certezas desmoronam e as pessoas se tornam cascas vazias. O filme usa essa temporalidade para escancarar que a maior rejeição acontece dentro de si mesmo. Viver o Natal, aqui, é uma viagem de enfrentamento das próprias sombras.

A grande sabedoria do filme está em dosar o final, evitando a redenção açucarada. O “felizes para sempre” é substituído por um “consigo me reconhecer”. Eles não se salvam, mas se veem. Talvez, na linguagem da psicanálise, tenham começado a traduzir seu sofrimento mudo em narrativa, o primeiro passo para deixar de ser apenas um sintoma. A estrada que os levará para longe um do outro já não parece tão solitária, porque carregam a prova existencial de que não eram os únicos perdidos no escuro.


Assistir a Os Rejeitados foi como observar uma cirurgia delicada sem anestesia. O filme é um estudo de personagens quase cruel em sua precisão, mas profundamente humano em sua conclusão. Fez-me refletir que nossas dores, por mais particulares que sejam, têm pontos de interseção. E que, às vezes, o maior ato de coragem não é seguir em frente sozinho, mas parar à beira da estrada com outros perdidos e, no silêncio que sucede o ruído do mundo, reconhecer o mesmo tremor nas mãos alheias. É um presente amargo e necessário, embrulhado no papel de época de um Natal qualquer.

Abraço e até a próxima, 

Elôh Santos 

🎬CLAQUETE: 

Título: Os Rejeitados 
Titulo Original: The Holdovers
Direção: Alexander Payne
Ano: 2023 (EUA) 
Gênero: Drama
Duração: 133 minutos.
Onde assistir: Netflix

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