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quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Dickens e o Natal como teatro da consciência

Ler Dickens no Natal é como beber uma taça de um bom vinho que você já conhece: a atmosfera familiar traz consigo não apenas a certeza do prazer, mas também um certo peso solene. Minha releitura deste ano, em meio ao burburinho consumista de dezembro, foi movida menos pelo ritual e mais por uma necessidade silenciosa de reencontrar profundidade em obras inseridas nesse contexto. E isso é algo que este conto promete, e cumpre.

Pois aqui não temos apenas uma história de fantasmas, mas um mergulho radical na possibilidade de mudança: um convite em forma de texto (no meu caso, áudio) para examinar as nossas próprias sombras.

Um Conto de Natal (ou A Christmas Carol) foi publicado em 1843, no auge da era vitoriana e do interesse de Dickens por narrativas natalinas. É, inquestionavelmente, o arquétipo do conto de Natal “clássico”. Nele, Dickens condensa o espírito de renovação moral cristã com uma crítica social ferrenha à ganância, à indiferença em relação aos pobres e à exploração infantil promovida pela Revolução Industrial.

Aqui, nosso protagonista é Ebenezer Scrooge, um ancião avarento e profundamente amargurado, que despreza o Natal e a caridade. Na véspera da data, ele é visitado pelo fantasma de seu antigo sócio, Jacob Marley,  condenado a vagar por conta de sua vida egoísta,  e por três Espíritos: do Natal Passado, Presente e Futuro. Eles lhe mostram cenas de sua solidão, da alegria alheia que despreza e de um futuro sombrio que o aguarda. A narrativa, mesclando tom gótico, humor e um sentimentalismo pungente, conduz Scrooge (e nós, leitores) por uma jornada vertiginosa de autoconfrontação. O desfecho, no entanto, é menos importante do que o processo visceral dessa transformação.


 Agora, deixo expostos alguns pontos que gostaria de ressaltar na obra.

Primeiro: o Natal como mecanismo de redenção performática. A festividade funciona como a arena onde a moral cristã se encena, mas Dickens a apresenta também como um ritual social necessário, um antídoto coletivo contra a desumanização do capitalismo selvagem. A redenção de Scrooge não é apenas espiritual; é pública. Ele precisa reaprender a performar a generosidade para se reintegrar ao tecido social.

Segundo: a crítica social que envelheceu de modo desigual. A denúncia da miséria infantil, da fome e da indiferença dos ricos permanece dolorosamente atual. No entanto, a solução individual proposta,  a transformação moral de um único homem, hoje soa ingênua como resposta a problemas estruturais. A caridade pessoal de Scrooge, embora comovente, funciona como paliativo e não questiona o sistema que produz a miséria. É nesse ponto que o conto revela suas raízes vitorianas: ele acredita mais no poder do coração individual do que na reforma efetiva da sociedade.

Honestamente, minha impressão pessoal é que o conto ainda funciona como um soco no estômago seguido de um abraço caloroso. As cenas com o Espírito do Natal Presente, especialmente aquelas envolvendo Tiny Tim, são fruto de uma manipulação sentimental eficaz,  e eu me deixei convencer, sem resistência. Ainda assim, a jornada de Scrooge hoje me parece menos sobre “mudar por amor ao próximo” e mais sobre um pânico existencial diante da própria mortalidade e irrelevância. O medo de um legado vazio surge como o verdadeiro motor de sua conversão. É um conto acessível a qualquer leitor, mas que ganha camadas quando lido à luz de suas limitações históricas e de sua força alegórica atemporal.

Assim, Um Conto de Natal é, no fundo, para aqueles que ainda acreditam (ou desejam acreditar) que um coração pode se reinventar, mesmo após anos de gelo. É um conto para um Natal de introspecção, quando o brilho das luzes não basta para iluminar os cantos escuros do próprio caráter. O que permanece, depois da última página, não é o “Feliz Natal!” entoado por Scrooge, mas o silêncio que se segue: o convite persistente para que, em qualquer época do ano, interrompamos nossa marcha e escutemos o tinir das correntes que forjamos em vida. Dickens, afinal, não escreveu apenas sobre o espírito do Natal; escreveu sobre o peso e a leveza de sermos humanos, quando ainda nos damos ao direito de olhar no espelho.

Feliz Natal!🎄🎅

Abraço e até a próxima.

Elôh Santos 




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