Quantas mulheres vivem uma vida inteira sendo aquilo que esperam delas, e não aquilo que desejam? Essa é uma pergunta que pode incomodar e geralmente surge em meio à monotonia de um dia qualquer é o motor propulsor do livro E Se Eu Morrer Amanhã?, de Filipa Fonseca Silva. Mais do que a história de uma mulher já na maturidade, o livro é um raio-x certeiro de uma existência construída como um castelo de cartas: bonito por fora, mas sustentado apenas pela vontade alheia. Helena, a protagonista, não está em crise por acaso; ela está reivindicando sua existência.
Ainda que o livro seja escrito a partir de uma linguagem leve e divertida, ele deixa claro, desde o início, que a vida de Helena foi menos vivida e mais “montada”, como um móvel de loja de departamento que vem com manual de instruções. Ela incorporou tão bem os papéis que lhe foram designados, esposa compreensiva e mãe exemplar, que durante muito tempo confundiu a personagem com a sua própria alma. A psicanálise nos ajuda a entender esse fenômeno cotidiano: é o superego agindo como um fiscal implacável, a voz na cabeça que dita o que é “certo” fazer, mesmo que seja amargo. Ao se identificar com essas expectativas, ela foi moldando um ideal de eu tão impecável quanto vazio. É o que acontece quando passamos anos escolhendo o sabor do bolo pela preferência dos convidados: um dia, ao olhar a fatia no prato, percebemos que nem sabemos se gostamos de bolo.
Helena viveu um casamento que lhe exigia sacrifícios e lhe retribuía muito pouco prazer. Nesse processo de encaixe social, algo ficou pelo caminho: o desejo. Ele não foi embora. Desejos são teimosos, ele foi apenas empurrado para o porão do inconsciente, num movimento que a psicanálise chama de recalque. A protagonista aprendeu a fazer renúncias como quem aprende a andar de bicicleta, com a falsa sensação de que isso era necessário para o equilíbrio. Mas o corpo guarda o que a mente tenta esconder. O vazio que ela sente, aquela inquietação que nada na vida parece preencher, é o sintoma gritando no salão vazio. É o incômodo de quem está num relacionamento “bom”, num emprego “estável”, e, ainda assim, sente que está sufocando dentro da própria roupa.
A viuvez de Helena também lhe apresenta a pergunta que a faz querer retomar o trilho do seu desejo: “E se eu morrer amanhã?”. Assim como o retorno à casa da filha e a forma como todos tentam lhe tirar a autonomia, esses elementos agem como um alicate cortando o fio que sustentava a fantasia. É o que, em psicanálise, chamamos de retorno do recalcado: tudo o que foi silenciado volta com força, geralmente na forma de angústia. E é crucial entender essa angústia não como uma fraqueza, mas como um sinal vital, o termômetro que finalmente aponta a febre. A crise, nesse momento, deixa de ser o problema e se torna o único caminho possível. É como quando uma casa está pegando fogo e o barulho do alarme, por mais ensurdecedor que seja, é, na verdade, a sua chance de sair de lá com vida.
E, quando ela começa a olhar para si mesma sem o filtro dos outros, surge a questão espinhosa: o que fazer com o desejo quando ele chega “fora do prazo de validade” que a sociedade estipula? A narrativa escancara um tabu silencioso: o desejo feminino não morre quando a pele começa a contar histórias, mas a autorização para vivê-lo, muitas vezes, sim. A psicanálise nos lembra que o desejo é atemporal, uma força que não entende de rugas, relógios ou culpa. A culpa, essa sim, é a ferramenta do superego para tentar manter a mulher na linha. A grande jornada do livro, portanto, não é a busca por um novo amor ou uma nova profissão, mas um movimento mais radical: a conquista de se autorizar. É dar a si mesma o direito de ser sujeito da própria vida, mesmo que isso custe a imagem de “boa mulher” que ela sustentou por décadas.
A beleza desse despertar é, também, um desconforto universal. Não se trata apenas de uma personagem de ficção; trata-se de um espelho colocado diante de qualquer um que já sentiu que sua vida foi uma longa e exaustiva atuação. A autora constrói uma narrativa que flui entre passado e presente como uma conversa de memórias, mostrando que não são necessários grandes terremotos externos para que uma vida se transforme. Às vezes, basta o abalo interno de se dar conta de que o papel que se veste há tanto tempo já não serve mais, ficou apertado, desconfortável, e cheira a mofo.
No fim, o livro nos deixa com aquele eco que as boas leituras provocam. Se a personagem conseguiu, ao menos, trocar a segurança fria do roteiro pela incerteza quente da sua própria verdade, o que nos resta é olhar para dentro e fazer a pergunta que o texto habilmente nos entrega: se o papel que você sustenta no mundo cair no chão agora, com todo o peso das expectativas, do “e se” e do “devia”, e você ficar ali, sem cenário nem texto decorado… o que sobra de verdade?
Abraço e até a próxima !
Elôh Santi

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Achei interessante, vou procurar o livro na Amazon. Faz refletir sobre o que realmente vale gastar o nosso tempo de vida.
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