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sexta-feira, 1 de maio de 2026

O que Por Lugares Incríveis ensina sobre sofrimento invisível

Quando fecho os olhos e penso neste livro, vejo duas formas humanas caminhando por estradas vazias, cercadas de um verde quase melancólico. Uma delas carrega o luto como um casaco pesado, visível a todos. A outra parece flutuar, sorri demais, fala depressa, muda de cor como um camaleão nervoso. Por Lugares Incríveis, de Jennifer Niven, poderia ser apenas mais uma história juvenil sobre amor e perda. Mas não é. É um lembrete delicado e urgente de que há pessoas que choram em público e há pessoas que sangram sorrindo.

Observo Violet Markey e sinto vontade de abraçá-la, e, se você já leu esse livro, certamente também teve esse desejo. Ela perdeu a irmã em um acidente de carro e, desde então, o mundo encolheu. Evita laços enquanto revisita o lugar do ocorrido, como forma de criar uma neblina que faça desaparecer a lembrança de que sua vida continua. Eu sei que Sigmund Freud olharia para Violet e certamente diria que ela está presa no que chamamos de luto complicado: a energia psíquica que deveria se deslocar para novos afetos fica estacionada, como um trem que não sai da estação.

Theodore Finch, porém, é um enigma que me perturbou ainda mais. Carismático, inquieto, capaz de rir alto e sumir no dia seguinte. Ele mesmo se descreve como alguém que tem “dias ruins”. E, com a leitura, a gente descobre que não são só ruins. São variações intensas entre uma energia quase maníaca e um silêncio de poço. Finch aprendeu cedo que o ambiente não acolhia seu verdadeiro self. Então construiu um falso self, uma máscara de funcionamento e graça, para que ninguém percebesse o quanto, por dentro, ele se despedaçava. Sua dor não chora; ela se fantasia de palhaço.

E então acontece o encontro. Violet e Finch são obrigados a fazer um projeto escolar juntos: explorar lugares incomuns de Indiana. E ali, caminhando por mirantes, cemitérios e lagos congelados, os dois criam um pequeno território de trégua. Aqui, chamo isso de respiro subjetivo: um espaço onde a dor pode desarmar as defesas por alguns instantes. Violet redescobre a coragem de desejar; Finch experimenta, frágil e docemente, o que é ser visto de verdade. A relação deles não é romântica no sentido comum. É, antes, uma tentativa de dois náufragos construírem uma jangada improvisada.

Mas aqui está o ponto que o livro ensina com coragem: o amor, por mais bonito que seja, não é hospital. Eu gostaria de acreditar que bastaria o afeto para salvar todos os finais e torná-los felizes. A narrativa do livro, fiel à vida, mostra que nem sempre é possível. Ela me mostra que alguém pode amar com todas as forças e, ainda assim, testemunhar o desmoronamento silencioso do outro. Isso não torna o amor inútil; torna-o humano, limitado e precioso exatamente por isso. Amar alguém com dor psíquica profunda é segurar a mão dele no escuro, mas não é possível ser a própria luz que falta.

Lentamente, vou entendendo que Por Lugares Incríveis não é só sobre o luto por quem se foi. É sobre a perda de si mesmo. Violet perdeu a irmã; Finch perdeu a própria continuidade interna, aquela sensação básica de que amanhã você ainda será você. Essa é a dor invisível que o romance ilumina: a que não aparece em atestados, não pede licença, não faz barulho. Ela se esconde no aluno que tira boas notas, no amigo que faz todo mundo rir, na pessoa que arrumou a cama pela manhã e já não consegue levantar à tarde.

Quando finalizei essa leitura, lembro da sensação intensamente agridoce e falei para mim mesma que deixaria para resenhá-la depois de um tempo, pois fiquei bem mexida. Talvez essa não seja minha melhor resenha. Talvez eu tenha usado muitas metáforas (sempre me critico por isso), mas ela é, com certeza, a digitada com mais cuidado, porque o livro deixou uma pergunta que me acompanha: quantos Finches cruzaram meu caminho sem que eu percebesse? Talvez a maior gentileza que podemos aprender com este livro seja esta: nem toda tristeza pede colo. Algumas pedem apenas que a gente não vire o rosto. Que a gente lembre que alguns sorrisos largos nem sempre refletem a realidade interna. Porque, como Jennifer Niven soube lindamente escrever nas entrelinhas, há pessoas que sangram sorrindo, e o sangue mais difícil de estancar é aquele que ninguém vê.

Um abraço gentil e até a próxima !

Elôh Santi 


4 comentários :

  1. Amo esse livro demais, pense num troço que me deixou destruída por dentro. Livro bom te faz chorar, se importar com os personagens como se eles fossem reais. Eu nunca nem vi o filme, vou ficar só no livro mesmo, pois chorei muito.

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  2. Assistir o filme e gostei muito, mas vou buscar ler o livro. Sempre vejo as pessoas dizer ser melhor.

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  3. É um tipo de leitura muito sensível. São temas muito difíceis de serem tratados e esse livro faz isso com muito respeito, simplicidade para se fazer entender e responsabilidade. Nunca assistir ao filme, espero que ele não tenha se afastado do livro.

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