REDES

sábado, 4 de abril de 2026

E Se Eu Morrer Amanhã? quando ser tudo para os outros é o jeito mais silencioso de deixar de ser

Quantas mulheres vivem uma vida inteira sendo aquilo que esperam delas, e não aquilo que desejam? Essa é uma pergunta que pode incomodar e geralmente surge em meio à monotonia de um dia qualquer é  o motor propulsor do livro E Se Eu Morrer Amanhã?, de Filipa Fonseca Silva. Mais do que a história de uma mulher já na maturidade, o livro é um raio-x certeiro de uma existência construída como um castelo de cartas: bonito por fora, mas sustentado apenas pela vontade alheia. Helena, a protagonista, não está em crise por acaso; ela está reivindicando sua existência.

 Ainda que o livro seja escrito a partir de uma linguagem leve e divertida, ele deixa claro, desde o início, que a vida de Helena foi menos vivida e mais “montada”, como um móvel de loja de departamento que vem com manual de instruções. Ela incorporou tão bem os papéis que lhe foram designados,  esposa compreensiva e mãe exemplar, que durante muito tempo confundiu a personagem com a sua própria alma. A psicanálise nos ajuda a entender esse fenômeno cotidiano: é o superego agindo como um fiscal implacável, a voz na cabeça que dita o que é “certo” fazer, mesmo que seja amargo. Ao se identificar com essas expectativas, ela foi moldando um ideal de eu tão impecável quanto vazio. É o que acontece quando passamos anos escolhendo o sabor do bolo pela preferência dos convidados: um dia, ao olhar a fatia no prato, percebemos que nem sabemos se gostamos de bolo.

Helena viveu um casamento que lhe exigia sacrifícios e lhe retribuía muito pouco prazer. Nesse processo de encaixe social, algo ficou pelo caminho: o desejo. Ele não foi embora.  Desejos são teimosos, ele foi apenas empurrado para o porão do inconsciente, num movimento que a psicanálise chama de recalque. A protagonista aprendeu a fazer renúncias como quem aprende a andar de bicicleta, com a falsa sensação de que isso era necessário para o equilíbrio. Mas o corpo guarda o que a mente tenta esconder. O vazio que ela sente, aquela inquietação que nada na vida parece preencher, é o sintoma gritando no salão vazio. É o incômodo de quem está num relacionamento “bom”, num emprego “estável”, e, ainda assim, sente que está sufocando dentro da própria roupa.

 A viuvez de Helena também lhe apresenta a pergunta que a faz querer retomar o trilho do seu desejo: “E se eu morrer amanhã?”. Assim como o retorno à casa da filha e a forma como todos tentam lhe tirar a autonomia, esses elementos agem como um alicate cortando o fio que sustentava a fantasia. É o que, em psicanálise, chamamos de retorno do recalcado: tudo o que foi silenciado volta com força, geralmente na forma de angústia. E é crucial entender essa angústia não como uma fraqueza, mas como um sinal vital,  o termômetro que finalmente aponta a febre. A crise, nesse momento, deixa de ser o problema e se torna o único caminho possível. É como quando uma casa está pegando fogo e o barulho do alarme, por mais ensurdecedor que seja, é, na verdade, a sua chance de sair de lá com vida.

E, quando ela começa a olhar para si mesma sem o filtro dos outros, surge a questão espinhosa: o que fazer com o desejo quando ele chega “fora do prazo de validade” que a sociedade estipula? A narrativa escancara um tabu silencioso: o desejo feminino não morre quando a pele começa a contar histórias, mas a autorização para vivê-lo, muitas vezes, sim. A psicanálise nos lembra que o desejo é atemporal, uma força que não entende de rugas, relógios ou culpa. A culpa, essa sim, é a ferramenta do superego para tentar manter a mulher na linha. A grande jornada do livro, portanto, não é a busca por um novo amor ou uma nova profissão, mas um movimento mais radical: a conquista de se autorizar. É dar a si mesma o direito de ser sujeito da própria vida, mesmo que isso custe a imagem de “boa mulher” que ela sustentou por décadas.

A beleza desse despertar é, também, um desconforto universal. Não se trata apenas de uma personagem de ficção; trata-se de um espelho colocado diante de qualquer um que já sentiu que sua vida foi uma longa e exaustiva atuação. A autora constrói uma narrativa que flui entre passado e presente como uma conversa de memórias, mostrando que não são necessários grandes terremotos externos para que uma vida se transforme. Às vezes, basta o abalo interno de se dar conta de que o papel que se veste há tanto tempo já não serve mais, ficou apertado, desconfortável, e cheira a mofo.

No fim, o livro nos deixa com aquele eco que as boas leituras provocam. Se a personagem conseguiu, ao menos, trocar a segurança fria do roteiro pela incerteza quente da sua própria verdade, o que nos resta é olhar para dentro e fazer a pergunta que o texto habilmente nos entrega: se o papel que você sustenta no mundo cair no chão agora, com todo o peso das expectativas, do “e se” e do “devia”, e você ficar ali, sem cenário nem texto decorado… o que sobra de verdade?

Abraço e até a próxima !

Elôh Santi



domingo, 22 de março de 2026

E se o caos não fosse regra? O que Herland faz a gente questionar


Imagine que você é um explorador e, de repente, tropeça em um país inteiro escondido no topo de uma montanha, onde não existe pobreza, violência ou qualquer tipo de briga de trânsito. Esse é o primeiro susto que os três protagonistas de A Terra Delas, livro de Charlotte Perkins Gilman, levam. O estranhamento deles é o nosso também: como pode uma sociedade funcionar sem o caos que a gente aprendeu a achar normal? E a resposta que nós, leitores, vamos descobrir é que ali eles simplesmente decidiram resolver os problemas de um jeito que a gente nunca tentou.

Aos poucos, a gente percebe que aquele lugar é muito mais do que uma cidade; é um símbolo. Herland funciona como um grande útero social, onde o cuidado não é um dom pessoal ou um dever feminino, mas a própria espinha dorsal da política. Tudo ali é pensado para nutrir, proteger e educar, numa repetição cíclica que lembra a natureza. E aqui está o grande pulo do gato para mim: a ausência de homens não significa a ausência de conflitos, mas sim a transformação deles. Sem a necessidade de provar quem manda, os desentendimentos viram conversas, e a competição vira cooperação. A maternidade, então, deixa de ser apenas um ato biológico e vira uma filosofia de governo.

Diante de tanta perfeição organizada, é natural que a nossa cabeça, acostumada com outro modelo, estranhe. Esse estranhamento é o mesmo que a socióloga brasileira Heleieth Saffioti descreveu ao analisar as estruturas sociais contemporâneas: a gente vive em um mundo onde a lógica da dominação masculina foi tão bem ensinada que parece a única possível. A gente olha para Herland e pensa: “Isso é bonito, mas não é realista”. E talvez não seja mesmo, porque, como Saffioti nos ajuda a enxergar, nossas instituições foram arquitetadas com base na hierarquia e na posse, enquanto ali a base é a responsabilidade compartilhada. É um choque de sistemas operacionais, e os três homens que ali chegam são a prova viva de como é difícil desinstalar um vírus que a gente nem sabia que tinha no cérebro.

E é justamente aí que a narrativa pega a teoria pela mão e a faz dançar. Cada um dos três exploradores reage a essa nova realidade como um paciente diferente diante do mesmo remédio. Um se apaixona pela lógica do lugar e decide que quer aprender a lição de cor; outro, mais prudente, observa e tenta entender a nova gramática social. Mas o terceiro… ah, o terceiro é o nosso velho conhecido, um grandíssimo de um jurandir. Ele entra nessa civilização como um turista mal-educado que tenta levar um churrasco para um encontro vegano. A arrogância dele não é um defeito pessoal, é o sintoma de um mundo inteiro que o ensinou que o seu jeito é o único possível. O embate que ele provoca é o coração pulsante do livro.

Com o tempo, os laços afetivos que se formam entre os exploradores e as mulheres de Herland viram um campo minado fascinante. Porque não se trata só de paixão; trata-se de dois pesos e duas medidas entrando em conflito dentro de um quarto. Enquanto os homens foram ensinados a ver relacionamentos como uma dança em que um precisa liderar, as mulheres de Herland enxergam a parceria como um voo de asas dobradas: ninguém guia, ambos sustentam. É nesse contraste que o livro escancara sua tese com a sutileza de um poeta e a precisão de um cirurgião: o que a gente chama de “natureza” do amor é, na verdade, uma construção social de séculos.

O ponto de virada, que me recuso a entregar para não estragar a surpresa, é a gota d’água que transborda o copo da paciência daquele mundo. Ali, onde a lógica da posse e da hierarquia nunca existiu, a tentativa de impô-la se choca com uma estrutura inegociável. O desfecho desse embate não se parece com nada que os três exploradores, ou nós leitores, esperaríamos. O que acontece é menos uma briga de casal e mais um terremoto cultural, um divisor de águas que prova, de uma vez por todas, que aquela sociedade não é ingênua: ela é, simplesmente, implacável com aquilo que ameaça sua harmonia. O resultado desse conflito ecoa como um sinal de fumaça, deixando no ar a pergunta: quem, afinal, estava preparado para viver naquele mundo?

No fim, quem parte de Herland sai como nós, leitores, ao fecharmos o livro: com a alma bagunçada, sabendo que vimos um mundo onde a cooperação não é utopia, mas rotina. A Terra Delas é um livro que menos responde perguntas e mais sacode a gente pela gola da camisa, perguntando: “E se a gente tivesse construído tudo diferente?” Ao virar a última página, fica a sensação de que a gente não leu uma ficção científica sobre um lugar distante, mas um relato de uma possibilidade que teima em existir bem aqui, nos cantos da nossa imaginação, esperando a gente ter coragem de tentar... ou admitir que nunca quis. 


Abraço e até a próxima ! 💝

Elôh Santi 


segunda-feira, 9 de março de 2026

Se Eu Tivesse Pernas Eu Te Chutaria: um retrato brutal do esgotamento materno


Terminei o longa-metragem Se Eu Tivesse Pernas Eu Te Chutaria (If I Had Legs I’d Kick You) com a cabeça em paz, mas o corpo ainda tonto, como se tivesse passado horas dentro da pele de outra pessoa. Acredito que esse seja exatamente o incômodo que as criadoras queriam deixar.

Longe de romantizar a maternidade como um território de ternura, o filme me joga de cabeça no esgotamento psíquico de uma mãe que tenta sustentar o cotidiano enquanto tudo desaba: a saúde da filha, o casamento, o trabalho e, aos poucos, a própria sanidade. Mais do que um drama convencional, a experiência é sensorial. Eu não assisti aos acontecimentos; eu os senti se deformando, como imagens refletidas em água turbulenta.

Grande parte dessa força visceral vem de Rose Byrne, interpretando Linda, em uma atuação de fisicalidade inquietante. Sua personagem caminha na corda bamba entre a funcionalidade e o colapso, movida apenas pela inércia de quem não pode parar. O cansaço não aparece nas falas, mas no corpo tenso, no olhar em alerta permanente, na respiração que parece curta demais para sustentar tanta demanda. Entendo perfeitamente por que tantos críticos defenderam seu nome nas premiações. Ela não interpreta uma crise, ela habita um estado de dissolução. Torci por ela no Oscar. Não levou. Ainda assim, nenhuma das indicadas, todas excelentes, me atravessou como ela nesse filme.

O que mais me impressionou, porém, foi a capacidade do filme de transformar o banal em um campo minado. Pequenos incidentes domésticos, ruídos, espaços apertados… tudo ganha uma dimensão quase fantasmagórica. A direção parece interessada em nos colocar dentro da mesma sobrecarga que domina a protagonista, como se o cotidiano fosse um funil estreito demais para comportar tanta responsabilidade.

Sob um olhar mais atento, enxergo ali uma dimensão psicanalítica poderosa: o abismo entre o ideal cultural da maternidade e a experiência real de uma mulher que se consome na obrigação de cuidar sem pausa. Quando não há espaço para reconhecer a própria exaustão, a mente começa a criar rachaduras, lapsos, fantasias, distorções. O filme sugere, sem didatismo, que o colapso muitas vezes nasce justamente da tentativa desesperada de continuar funcionando.

Confesso que terminei sem entender completamente o final. E tudo bem. Talvez a chave não seja o entendimento racional, mas o incômodo físico de ter mergulhado na psique de Linda. Fiquei tonta, como se tivesse emergido rápido demais de um mergulho profundo. E acredito que essa seja a marca que o filme deixa: mais do que uma história sobre maternidade, ele é a experiência de testemunhar uma mente tentando sustentar responsabilidades impossíveis até começar a falhar. Permanece em mim não pelas respostas, mas pela sensação persistente de ter estado lá dentro.

Abraço e até a próxima ! 💝

Elôh Santi 

🎬CLAQUETE: 

Titulo original: If I Had Legs I’d Kick You
Título nacional Se Eu Tivesse Pernas Eu Te Chutaria
Direção: Mary Bronstein
Ano: 2025 ( EUA ) 
Gênero: Drama 
Duração: 
113 minutos
Onde assistir:  Prime Video 


domingo, 1 de março de 2026

Doidas e Santas: crônicas que parecem simples, até não serem.

 

A escrita da Martha Medeiros é daquelas que  as vezes engana: parece simples à primeira vista, mas em vários momentos ganha um potencial de nos comunicar algo importante preenchido com sensibilidade. E isso aguça a leitura. Pode ocorrer de você se pegar folheando enquanto passa o café ou penteia o cabelo. E foi mais ou menos assim que ocorreu a minha leitura de Doidas e Santas, lançado em 2008.

Por ser uma coletânea de crônicas, a leitura oscila. Tem crônica que é quase um café com leite despretensioso e comum; outras são um expresso duplo  que te chama atenção. Entre as que li, “A moça do carro azul” me chamou atenção pela forma como constrói imagem e presença dentro de uma breve passagem de tempo, afinal toda a história acontece no intervalo de um sinal verde no semáforo. Já “Uma vida interessante” tocou num lugar mais íntimo, quase silencioso, daqueles que a gente nem sabia que tinha um interfone.

Trata-se de um livro com cerca de 100 crônicas, e nem todas têm o mesmo impacto. Algumas passam como aquele conhecido em festa que a gente cumprimenta por educação, mas isso faz parte da proposta. No geral, há sempre alguma observação interessante, mesmo nas mais simples. É como folhear uma caixa de bombom: nem todos são do meu sabor favorito, mas nenhum é um abismo terrível de decepção.

No fim, é um livro que não exige pressa nem leitura linear. Ele funciona melhor quando lido aos poucos, como quem aceita pequenas conversas espalhadas ao longo dos dias. E confesso: no virar das páginas, fiquei com a sensação de que Martha Medeiros acabou virando uma espécie de vizinha de corredor,  dessas que a gente cruza volta e meia e para para conversar sobre as aleatoriedades do cotidiano.

Abraço e até a próxima ! 💝

Elôh Santi 


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Minha Metade Silenciosa: quem somos quando perdemos quem nos definia?

O que seria de nós se um dia nos arrancassem a pessoa que mais nos define? Não falo apenas de alguém querido cuja ausência sentimos com saudade, mas de alguém que, sem percebermos, sustenta nossa própria noção de quem somos.

Foi essa pergunta que começou a ecoar em mim enquanto lia Minha Metade Silenciosa, do autor Andrew Smith. A história me fez pensar sobre como certas relações acabam se tornando parte da nossa própria identidade.

O livro acompanha dois irmãos, Stark, apelidado de Palito,  e Bosten. Crescendo em um ambiente familiar difícil, os dois desenvolvem entre si uma ligação profunda, quase como se um fosse o abrigo emocional do outro. Bosten assume muitas vezes o papel de proteção, enquanto Stark encontra no irmão mais velho uma forma de reconhecimento que o mundo ao redor raramente oferece.

 Durante a leitura, percebi que a narrativa não fala apenas sobre laços familiares. Ela toca em algo muito humano: nossa necessidade de nos enxergarmos no outro para existir. Em muitas relações, o vínculo vai além do afeto e acaba funcionando como um tipo de espelho onde a identidade se apoia. Quando esse espelho se rompe, a sensação não é apenas de tristeza, mas de perda de chão.

A história avança justamente quando essa estrutura começa a se desfazer. Bosten se vê diante de conflitos intensos dentro da própria família e acaba se afastando de casa, deixando Stark diante de uma ausência que não é apenas física. A partir daí, o livro passa a explorar o desafio de alguém que precisa aprender a existir sem a presença que antes lhe dava segurança. Um dos aspectos que mais me envolveram foi a maneira como o autor mostra esse processo de crescimento. Não há grandes heroísmos nem soluções rápidas. O que vemos é um caminho lento e cheio de hesitações, em que o protagonista precisa reconstruir a própria percepção de si mesmo em meio à perda e à solidão.

Minha leitura do livro como um todo é bastante positiva. A narrativa é sensível, reflexiva e consegue tocar em temas difíceis de maneira muito humana. Ainda assim, senti que o final deixa algumas pontas soltas: certos personagens que ao longo da história parecem importantes para o desenvolvimento da trama acabam ficando sem um fechamento claro.

Essa sensação de inacabado não chega a comprometer a experiência geral da leitura, mas deixa a impressão de que algumas histórias poderiam ter sido exploradas com mais profundidade. Mesmo assim, Minha Metade Silenciosa continua sendo um livro que provoca reflexão e nos faz pensar sobre como nos construímos nas relações que atravessam nossa vida.

No fim, a história parece lembrar algo simples e ao mesmo tempo difícil de aceitar: crescer também significa aprender a existir sem depender completamente da presença do outro. Amar, talvez, não seja se tornar metade de alguém, mas encontrar uma forma de continuar inteiro mesmo quando certas ausências permanecem.

Abraço e até a próxima ! 💝

Elôh Santi