Longe de romantizar a maternidade como um território de ternura, o filme me joga de cabeça no esgotamento psíquico de uma mãe que tenta sustentar o cotidiano enquanto tudo desaba: a saúde da filha, o casamento, o trabalho e, aos poucos, a própria sanidade. Mais do que um drama convencional, a experiência é sensorial. Eu não assisti aos acontecimentos; eu os senti se deformando, como imagens refletidas em água turbulenta.
Grande parte dessa força visceral vem de Rose Byrne, interpretando Linda, em uma atuação de fisicalidade inquietante. Sua personagem caminha na corda bamba entre a funcionalidade e o colapso, movida apenas pela inércia de quem não pode parar. O cansaço não aparece nas falas, mas no corpo tenso, no olhar em alerta permanente, na respiração que parece curta demais para sustentar tanta demanda. Entendo perfeitamente por que tantos críticos defenderam seu nome nas premiações. Ela não interpreta uma crise, ela habita um estado de dissolução. Torci por ela no Oscar. Não levou. Ainda assim, nenhuma das indicadas, todas excelentes, me atravessou como ela nesse filme.
O que mais me impressionou, porém, foi a capacidade do filme de transformar o banal em um campo minado. Pequenos incidentes domésticos, ruídos, espaços apertados… tudo ganha uma dimensão quase fantasmagórica. A direção parece interessada em nos colocar dentro da mesma sobrecarga que domina a protagonista, como se o cotidiano fosse um funil estreito demais para comportar tanta responsabilidade.
Sob um olhar mais atento, enxergo ali uma dimensão psicanalítica poderosa: o abismo entre o ideal cultural da maternidade e a experiência real de uma mulher que se consome na obrigação de cuidar sem pausa. Quando não há espaço para reconhecer a própria exaustão, a mente começa a criar rachaduras, lapsos, fantasias, distorções. O filme sugere, sem didatismo, que o colapso muitas vezes nasce justamente da tentativa desesperada de continuar funcionando.
Confesso que terminei sem entender completamente o final. E tudo bem. Talvez a chave não seja o entendimento racional, mas o incômodo físico de ter mergulhado na psique de Linda. Fiquei tonta, como se tivesse emergido rápido demais de um mergulho profundo. E acredito que essa seja a marca que o filme deixa: mais do que uma história sobre maternidade, ele é a experiência de testemunhar uma mente tentando sustentar responsabilidades impossíveis até começar a falhar. Permanece em mim não pelas respostas, mas pela sensação persistente de ter estado lá dentro.
Abraço e até a próxima ! 💝
Elôh Santi
🎬CLAQUETE:
Gênero: Drama
Duração: 113 minutos
Onde assistir: Prime Video
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