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sábado, 21 de março de 2026

Quando até desacelerar vira produto: a performance do low profile


Eu percebi que até minha tentativa de desacelerar virou produto. Comprei o caderno de capa dura com a palavra “lentidão” gravada, baixei o aplicativo que limita o uso do celular e até orcei um fim de semana numa pousada sem sinal. Mas, no fundo, eu sei: paguei para ter permissão de não fazer nada. O “slow time” que andam vendendo por aí não é um ritmo de vida, é um item de consumo, uma pausa autorizada depois que extraem nossa energia produtiva. Mas deixa eu falar de uma sensação estranha: é que, mesmo longe das telas, me pego planejando como aquela experiência vai soar quando eu contá-la.

Mas o que realmente me deixa reflexiva é que, hoje, nem o silêncio tem escapado do registro. Lembro de uma tarde em que desliguei o celular e fui ler, mas, antes, tirei uma foto do livro aberto, postei nos stories e escrevi “Offline”. Por que precisei testemunhar minha própria desconexão? Kkkkkk Parece que, se não houver prova, a experiência não valeu. Até o tédio virou conteúdo: eu registro o momento em que decidi não registrar. E aí me pergunto: será que eu vivo ou só arquivo memórias para consumo futuro? O tempo lento, quando é verdadeiro, não tem moldura. Mas grande parte de nós continua procurando uma.

Confesso que já não sei mais o que é ser low profile de fato. Controlo minhas postagens e meu tempo de consumo de tela, planejo o que assisto e busco passatempos analógicos, mas ainda me soa estranha a necessidade de rolar o feed todos os dias. Cheguei à conclusão de que ser low profile, hoje, raramente significa viver discretamente. Na maior parte das vezes, trata-se de uma estética com curadoria: poucas postagens, mas muito bem pensadas; ausência calculada que se torna presença estratégica.

O verdadeiro low profile não anuncia sua baixa visibilidade, ele simplesmente some. Mas o que vemos são perfis com “último post em final de 2025” visitados diariamente, silêncios ensaiados, biografias com “não estou muito aqui” que são atualizadas toda semana. É a performance da ausência, o espetáculo da moderação. No fundo, me parece que até tentar sair do jogo virou parte do jogo, e a vida vivida de verdade fica cada vez mais difícil de distinguir de sua representação bem-comportada.

Beijo e até a próxima!

Elôh Santi

Um comentário :

  1. Verdade, até a nossa ausência tentamos registrar. Chega ser hilário, além de triste.

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