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domingo, 22 de março de 2026

E se o caos não fosse regra? O que Herland faz a gente questionar


Imagine que você é um explorador e, de repente, tropeça em um país inteiro escondido no topo de uma montanha, onde não existe pobreza, violência ou qualquer tipo de briga de trânsito. Esse é o primeiro susto que os três protagonistas de A Terra Delas, livro de Charlotte Perkins Gilman, levam.  O estranhamento deles é o nosso também: como pode uma sociedade funcionar sem o caos que a gente aprendeu a achar normal? E a resposta que nós, leitores, vamos descobrir é que ali eles simplesmente decidiram resolver os problemas de um jeito que a gente nunca tentou.

Aos poucos, a gente percebe que aquele lugar é muito mais do que uma cidade; é um símbolo. Herland funciona como um grande útero social, onde o cuidado não é um dom pessoal ou um dever feminino, mas a própria espinha dorsal da política. Tudo ali é pensado para nutrir, proteger e educar, numa repetição cíclica que lembra a natureza. E aqui está o grande pulo do gato para mim: a ausência de homens não significa a ausência de conflitos, mas sim a transformação deles. Sem a necessidade de provar quem manda, os desentendimentos viram conversas, e a competição vira cooperação. A maternidade, então, deixa de ser apenas um ato biológico e vira uma filosofia de governo.

Diante de tanta perfeição organizada, é natural que a nossa cabeça, acostumada com outro modelo, estranhe. Esse estranhamento é o mesmo que a socióloga brasileira Heleieth Saffioti descreveu ao analisar as estruturas sociais contemporâneas: a gente vive em um mundo onde a lógica da dominação masculina foi tão bem ensinada que parece a única possível. A gente olha para Herland e pensa: “Isso é bonito, mas não é realista”. E talvez não seja mesmo, porque, como Saffioti nos ajuda a enxergar, nossas instituições foram arquitetadas com base na hierarquia e na posse, enquanto ali a base é a responsabilidade compartilhada. É um choque de sistemas operacionais, e os três homens que ali chegam são a prova viva de como é difícil desinstalar um vírus que a gente nem sabia que tinha no cérebro.

E é justamente aí que a narrativa pega a teoria pela mão e a faz dançar. Cada um dos três exploradores reage a essa nova realidade como um paciente diferente diante do mesmo remédio. Um se apaixona pela lógica do lugar e decide que quer aprender a lição de cor; outro, mais prudente, observa e tenta entender a nova gramática social. Mas o terceiro… ah, o terceiro é o nosso velho conhecido, um grandíssimo de um jurandir. Ele entra nessa civilização como um turista mal-educado que tenta levar um churrasco para um encontro vegano. A arrogância dele não é um defeito pessoal, é o sintoma de um mundo inteiro que o ensinou que o seu jeito é o único possível. O embate que ele provoca é o coração pulsante do livro.

Com o tempo, os laços afetivos que se formam entre os exploradores e as mulheres de Herland viram um campo minado fascinante. Porque não se trata só de paixão; trata-se de dois pesos e duas medidas entrando em conflito dentro de um quarto. Enquanto os homens foram ensinados a ver relacionamentos como uma dança em que um precisa liderar, as mulheres de Herland enxergam a parceria como um voo de asas dobradas: ninguém guia, ambos sustentam. É nesse contraste que o livro escancara sua tese com a sutileza de um poeta e a precisão de um cirurgião: o que a gente chama de “natureza” do amor é, na verdade, uma construção social de séculos.

O ponto de virada, que me recuso a entregar para não estragar a surpresa, é a gota d’água que transborda o copo da paciência daquele mundo. Ali, onde a lógica da posse e da hierarquia nunca existiu, a tentativa de impô-la se choca com uma estrutura inegociável. O desfecho desse embate não se parece com nada que os três exploradores, ou nós leitores, esperaríamos. O que acontece é menos uma briga de casal e mais um terremoto cultural, um divisor de águas que prova, de uma vez por todas, que aquela sociedade não é ingênua: ela é, simplesmente, implacável com aquilo que ameaça sua harmonia. O resultado desse conflito ecoa como um sinal de fumaça, deixando no ar a pergunta: quem, afinal, estava preparado para viver naquele mundo?

No fim, quem parte de Herland sai como nós, leitores, ao fecharmos o livro: com a alma bagunçada, sabendo que vimos um mundo onde a cooperação não é utopia, mas rotina. A Terra Delas é um livro que menos responde perguntas e mais sacode a gente pela gola da camisa, perguntando: “E se a gente tivesse construído tudo diferente?” Ao virar a última página, fica a sensação de que a gente não leu uma ficção científica sobre um lugar distante, mas um relato de uma possibilidade que teima em existir bem aqui, nos cantos da nossa imaginação, esperando a gente ter coragem de tentar... ou admitir que nunca quis. 

Abraço e até a próxima ! 💝

Elôh Santi 


4 comentários :

  1. Amo essa leitura e incomodo que ela provoca ao nos colocar diante de uma realidade tangível e que só não existe porque nós acostumamos ao caos e ao sofrimento.

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    1. Fico muito feliz que a leitura tenha te tocado assim. Esse incômodo que você descreve também me atravessou. Acho que é exatamente aí que a história ganha força. Obrigada por compartilhar sua percepção comigo.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Outro dia tava vendo uma postagem sobre como os vagões de metrô só de mulheres, são cheirosos, tranquilos e mais em paz. Na hora lembrei desse livro , e desejei uma Herland para todas nós 🩷

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