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quarta-feira, 22 de abril de 2026

100 Medos: Sole e a prisão silenciosa de quem confunde segurança com viver pouco

Sole, a protagonista do filme 100 Medos, é daquelas pessoas que parecem ter assinado um contrato de paz com a zona de conforto, só que a cláusula escondida dizia: proibido viver. A jovem italiana tem medo de bicicleta, de amor, de arriscar, de confiar. Trocando em miúdos: tem medo de tudo aquilo que não seja roteirizado e já conhecido. Sob a ótica de Sigmund Freud, Sole não é apenas uma ansiosa; é uma colecionadora de sintomas que gritam mais alto que sua vontade de existir. O que ela teme, na verdade, não são os objetos lá fora, mas os desejos que urram lá dentro e que ela insiste em abafar com seus surrados cobertores emocionais.

Para Freud, sintomas não nascem do nada, como fungo em parede úmida. Eles têm história, conflito e, muitas vezes, um certo charme macabro. A ansiedade de Sole é um sintoma clássico: um medo deslocado de algo interno para situações triviais do lado de fora. Ela não tem pavor de andar de bicicleta; tem pavor da sensação de perder o controle sobre o próprio corpo enquanto tenta equilibrar-se em duas rodas. É como se seu inconsciente fizesse uma mágica suja: pegar uma angústia sem nome e transformá-la em medo de um cachorrinho de rua visível, assim mais fácil de evitar. Os medos dela funcionam como um muro que protege… mas também aprisiona. O problema é que, quando o muro é muito alto, a ponto de apagar a linha do horizonte, a gente esquece que o nosso quintal não é o mundo.

O mecanismo de defesa favorito de Sole é a evitação, uma estratégia tão sofisticada quanto tentar emagrecer jogando a balança pela janela. Ela reprime desejos, isola afetos (sentir dói, então melhor não sentir) e ainda racionaliza sua paralisia como “prudência”. Freud olharia para Sole e, entre uma baforada e outra em seu charuto, diria: o ego dela trabalha horas extras para evitar qualquer abalo sísmico na rotina. Mas o interessante é que a vida não lê manual de defesas do ego. E eis que um terremoto bate à porta: a morte de sua melhor amiga, de forma inesperada, rasga a realidade de Sole, não só deixando saudade, mas também uma lista de desafios enfiada goela abaixo na zona de conforto dessa protagonista.



Freud, em Luto e Melancolia, explica que perder alguém pode nos paralisar (melancolia) ou nos mover (luto). Sole, a princípio, ensaia a paralisia completa: o mundo vira cinza, e a cama vira trincheira. Mas a lista deixada por Emma funciona como um despertador com gosto de provocação afetuosa. A perda rompe a estagnação não porque a dor some, mas porque ela se torna combustível. Sole percebe, aos trancos e barrancos, muitas vezes atrapalhada, quase sempre tremendo, que honrar a amiga é exatamente fazer o que Emma sempre quis: que ela vivesse. O luto, aqui, deixa de ser um poço sem fundo e vira uma escada meio torta, mas funcional.

Por dentro, o conflito psíquico é épico. De um lado, o Id berrando: “Vai, mona, beija logo! Vai, mulher, entra nesse barco!”. Do outro, o Superego com cara de professora de língua portuguesa do 6º ano que usa cabelinho chanel torto (sim, foi bem específico 😒), dizendo: “Você vai errar, vão rir de você, é melhor nem tentar.” O ego de Sole, coitado, trabalha mais que camareira em resort com promoção de final de semana. Resultado: ela passa anos confundindo proteção com prisão, como quem tranca o próprio carro com a chave dentro e ainda acha que está segura.

Mas eis que o amor. Sim, porque no meio da jornada de desafios, Sole se envolve com alguém, e o amor, claro, faz o que todo amor faz: cutucar feridas antigas com vara curta. Freud diria que repetimos velhos padrões: medo de abandono, rejeição, necessidade de aprovação, fuga assim que a intimidade aperta o cerco. Sole sai correndo, volta, hesita, dá um passo para frente e dois para trás, como alguém aprendendo uma dança de forma desengonçada. Mas o avanço está justamente em não ter desistido depois do primeiro tropeço. Ela não vira uma super dançarina da coragem, mas aprende a agir mesmo com as pernas bambas.


No fim, Sole não derrota todos os medos. Derrotar não é a questão. Ela apenas para de obedecer cegamente a eles. A cura, pela lente freudiana, não é virar uma pessoa perfeita e destemida, seria pedir demais até para os psicanalistas mais otimistas. É, sim, tornar os conflitos mais conscientes e menos tiranos. Sole representa milhões de pessoas que, como ela, confundem segurança com cerceamento. Ao longo do filme, ela descobre que viver dói, mas não viver cobra um preço maior: o de olhar para trás e perceber que o medo não protegeu nada, apenas adiou tudo. E que coragem não é ausência de tremor, é movimento apesar dele. Como quem anda de bicicleta pela primeira vez: meio torto, quase caindo, mas com um sorriso bobo no rosto.

Abraço e até a próxima, 

Elôh Santi 

🎬CLAQUETE: 

Título: 100 Medos
Titulo Original: La Donna Per Me
Direção: Andrea Jublin
Ano: 2022 (Itália)  
Gênero: Comédia, Romance, Drama
Duração: 88 minutos (1h 28min)
Onde assistir: Netflix



2 comentários :

  1. Esse filme é maravilhoso, muito leve , sensível. Sua resenha sobre a Sole está perfeita, ela é bem isso mesmo.

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  2. Real vontade de assistir, já gostei da Sole só de ler por aqui. Lá vou eu pra Netflix.

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