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quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Porque "Água para Elefantes" foi a furada de fila perfeita na minha TBR de Outubro.

Confesso que cheguei a esta história pela porta dos fundos , ou melhor, pela tela grande. Assistir ao filme foi o primeiro passo; ver Robert Pattinson como Jacob Jankowski plantou uma sementinha de curiosidade. Ler o livro, que me foi dado de presente, foi como receber o convite para entrar nos bastidores do espetáculo.

Água para Elefantes, da talentosa Sara Gruen, publicado no Brasil pela Editora Arqueiro, é daquelas obras que nos envolvem completamente, mostrando que, por trás da lona pintada de um circo, há muito mais do que algodão doce e luzes cintilantes.

Minha TBR de outubro estava bem definida, mas este livro foi daquelas belas e necessárias furadas de fila. A capa romântica e o título sugestivo podem, à primeira vista, sugerir uma história “água com açúcar”, um romance simples sob a grande lona. Que engano feliz o meu. A narrativa é, na verdade, um retrato cru e profundamente humano sobre a luta pela dignidade em meio ao desespero da Grande Depressão,  um tema que ressoa com uma força surpreendente.

Além da força temática, a estrutura narrativa é um dos trunfos mais brilhantes da obra. Sara Gruen (uma das minhas autoras prediletas) tece a história em dois tempos: o Jacob idoso, vivendo com a alma aprisionada em um asilo, e o Jacob jovem, que encontra o seu destino ao pular em um trem de circo. Essa alternância não é um mero recurso estético; é a alma do livro.

Através dos olhos do Jacob nonagenário, a narrativa ganha camadas de melancolia, nostalgia e uma sabedoria ácida sobre o envelhecimento, a perda de autonomia e a forma brutal como a sociedade descarta os seus idosos. É um drama pungente sobre a memória e o arrependimento.

Falando em circo, a autora descontrói qualquer noção ingênua que possamos ter. O “Espetáculo Mais Impressionante da América”, do Circo Benzini Brothers, é um microcosmo de brutalidade e sobrevivência. A crueldade com os animais,  especialmente a dolorosa e simbólica jornada da elefanta Rosie, que é descrita sem meios-termos, chocando pela veracidade. A hierarquia implacável entre os trabalhadores, a lei do silêncio e a forma como os “homens do espetáculo” são descartados como lixo humanizam uma realidade frequentemente mascarada pelo glamour do show.

O romance entre Jacob e Marlena é, de fato, o fio condutor que costura toda a trama, dando ritmo e coração à história. No entanto, para mim, ele funciona mais como a trilha sonora de um drama muito maior. É um amor proibido que floresce no solo árido da crueldade de August, sem eclipsar as reflexões sociais e éticas que a autora levanta com maestria. A escrita de Sara Gruen é densa sem ser pesada, acessível sem ser simplória,  o tipo de escrita que sonho um dia alcançar. Ela tem um dom para a descrição sensorial: é possível quase sentir o cheiro de palha e suor do trem, ouvir o ruído da multidão e a música do carrossel.

Em comparação ao filme, o livro oferece uma imersão infinitamente mais profunda. A complexidade psicológica de August, com seus momentos de charme e violência, é mais explorada, tornando-o uma figura tão trágica quanto aterrorizante. As camadas de sofrimento e resistência do Jacob idoso, que no filme são apenas vislumbradas, tornam-se aqui o pilar emocional da narrativa. A leitura enriquece cada cena, dando voz a pensamentos e contextos que a adaptação cinematográfica, por limitações de tempo, necessariamente precisa abreviar.

Água para Elefantes é, no fim das contas, uma lição sobre encontrar lar no mundo e resgatar a própria história. É um livro que nos lembra que a vida, com toda a sua beleza e ferocidade, é o maior espetáculo da terra. Foi um presente que me fez refletir sobre dignidade, compaixão e as histórias que carregamos até o último ato. Com certeza uma das minha melhores leituras deste ano, e prova de que um livro não precisa ser um lançamento hypado para conquistar tal posição.

Então é isso, respeitável público...

Beijos e até a próxima, 

Elôh Santi 

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             Título: Água Para Elefantes  Autor: Sara Gruen  
           Páginas: 272  ✦ Ano: 2011 ✦ Editora: Arqueiro


domingo, 26 de outubro de 2025

Entre bisturis e culpas: o que Leslie Wolfe não suturou em "A Cirurgiã"

       

Com um atraso cirúrgico (e um pouco de anestesia no ânimo), enfim chego com esta resenha. Lançado em 2024 pela Faro Editorial, A Cirurgiã, de Leslie Wolfe, promete tensionar ética, técnica e a frágil natureza humana. Uma combinação que, em tese, seria a dose perfeita de suspense. O convite é feito sob luzes frias e o tilintar metálico do centro cirúrgico, onde nada é mais perigoso do que o erro humano. Mas será que o bisturi de Wolfe corta fundo o bastante?

Então vejamos, a trama acompanha Anne Wiley, uma cirurgiã brilhante e obsessiva, cuja necessidade de controle beira o ritual. Nos gestos de ajustar as luvas e medir o corte, Wolfe desenha sua moral ambígua. Um erro em um procedimento de rotina abre uma dúvida perturbadora: falha técnica, julgamento equivocado... ou algo intencional? O hospital, com seus corredores estéreis e hierarquias frias, vira o palco de traições silenciosas e culpas disfarçadas.

Ao redor de Anne, orbitam personagens que acendem faíscas de poder, desejo e medo. Colegas movidos pela ambição, superiores que fecham os olhos para alertas, e pacientes cujas histórias escondem segredos além dos sintomas. É nesse cenário que surge Paula Fuselier, uma promotora enigmática e metódica, suficientemente próxima para abalar as estruturas de Anne, mas distante o bastante para guardar suas próprias sombras. A relação entre as duas foi um o ponto bastante curioso da narrativa: um jogo de manipulação e inseguranças que mistura fascínio e desconfiança. Mas que também me decepcionou em aspectos comportamentais conflitantes com o estabelecido anteriormente pelo eixo narrativo.

Wolfe tem domínio sobre o vocabulário clínico e sabe construir tensão, mas parece sofrer do mesmo mal que critica: o excesso de controle. Há momentos em que tudo é explicado, costurado, diagnosticado. E o que poderia ser inquietante se torna previsível. O resultado é um suspense que oscila entre a precisão técnica e a perda de pulso.

   

 A partir daqui, a análise contém  spoilers suaves, mas ainda assim spoilers.

A entrada de Paula, a promotora, funciona inicialmente como um sopro de ar fresco, alguém que observa o caso de fora, com frieza e método. Mas à medida que a história avança, ela se torna o espelho desconfortável de Anne.  É Paula quem começa a visibilizar indícios da ligação de Anne ao paciente morto no início da trama. Assim como ligam Derreck, o marido de Anne, a condutas moralmente dúbias. Mexendo nos alicerces profissionais e pessoais da protagonista. O que é bom, pois  essa conexão desloca o conflito do bloco cirúrgico para o íntimo: o que está em jogo já não é apenas a reputação profissional, mas o peso de antigas feridas.

 O paciente que desencadeia a crise tem um passado entrelaçado com o da irmã adotiva de Anne. Uma revelação que, embora impactante, vem acompanhada de uma longa explicação. Wolfe tenta costurar trauma familiar e consequência clínica, e a ideia é potente, mas perde força por falta de sutileza. A autora alterna entre as investigações de Paula e as memórias fragmentadas de Anne, mas a troca constante de foco deixa o texto instável. E isso era como tiro na minha imersão.

Paula, que tinha potencial para ser uma antagonista complexa, acaba soando esquemática: mais função de enredo do que personagem viva, quando não, uma vilã extremamente caricata contando seus planos de vingança.  Anne, por outro lado, tem presença verossímil dentro da sala de cirurgia, cada gesto, cada silêncio é crível. O problema é que, quando a história mergulha em seus traumas, Wolfe não confia no subtexto: explica demais, racionaliza demais. Derreck, o marido, poderia ter sido o gatilho emocional perfeito, mas é tratado como um mero catalisador externo. E ao meu ver,  quando tudo se explica, pouco se resta a sentir.

 És minha conclusão pós- cirúrgica:

Chego ao fim com a sensação de que há mérito inegável em A Cirurgiã. Wolfe cria boas imagens, sustenta um universo hospitalar convincente e provoca reflexões sobre culpa e ética. Mas a leitura, em vez de intensa, se torna exaustiva, como uma cirurgia que se estende além do necessário. Ainda assim, para quem está dando os primeiros passos em  thriller médico de suspense, esta pode ser uma porta de entrada convidativa.

 Para mim, pessoalmente, faltou a precisão afiada que espero de um bisturi literário.

Até a próxima, 

Elôh Santi 

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Título: A Cirurgiã  Autor: Leslie Wolfe  
Páginas: 224  ✦ Ano: 2024 ✦ Editora: Faro Editorial

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

A metáfora da coragem e do trem em "A Viagem de Chihiro"


Há filmes que são como baús de memórias, e "A Viagem de Chihiro" é um deles, guardando não apenas a narrativa genial de Hayao Miyazaki, mas também as sementes emocionais que plantou em seus espectadores.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Quando o medo não precisa de monstros: o desconforto cotidiano de ser mulher em “O Royal Hotel”

 

Lançado em 2023, O Royal Hotel é um filme tenso e incisivo da diretora Kitty Green, que já havia impressionado com "A Assistente".

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Refrescante, mas raso: um olhar sobre "A Garota do Lago" de Charlie Donlea

 

Acabo de fechar A Garota do Lago, do autor estadunidense Charlie Donlea, publicado pela Editora Faro Editorial em 2017. E posso iniciar dizendo que ele é um daqueles thrillers que promete um mergulho em águas profundas, mas que, no final, se revela um banho de lago: refrescante, mas sem a complexidade de um oceano.

 Deixa eu me dirigir primeiro a você, pessoa leitora. Se a sua busca anseia por uma história que funciona como uma serpente,  se arrastando com um ritmo sedutor e te levando a virar páginas quase sem perceber, este livro é para você. Donlea é um mestre da curiosidade, usando capítulos curtos e mudanças de perspectiva como iscas. É aquele tipo de leitura que faz você dizer “só mais essa página” e, quando se dá conta, já varou a madrugada.

 A ambientação em uma cidade pequena, com sua atmosfera pacata e cheia de segredos sussurrados, é o palco perfeito para esse mistério. Sinto que a narrativa me isolou do mundo real, criando uma bolha de suspense muito bem-vinda. É como se a cidade fosse uma personagem silenciosa, mas crucial para a trama.

Agora, preciso ser sincera: os personagens são como sombras projetadas na parede,  você entende suas formas, mas não sente sua textura. A protagonista e seus coadjuvantes cumprem seu papel, mas falta aquela centelha de humanidade que faz a gente torcer ou se identificar de verdade. Quanto ao clímax, confesso que, para mim, a revelação final chegou com o estrondo de um foguete molhado. Se você já é veterano em suspenses, como eu, é possível que anteveja todo o fio da teia que leva à conclusão. A sensação é a de um quebra-cabeça montado com habilidade, mas cuja imagem final já conhecíamos.


Minhas pontuações para quem ama e estuda escrita: observe como Donlea domina o ritmo como um maestro. Seus capítulos são curtos, e seus ganchos, muito bem alinhados e precisos. É um exemplo valioso de como a cadência narrativa pode prender o leitor, mesmo quando a profundidade psicológica não é o forte. Outro aprendizado é a construção da atmosfera. Ele não se perde em descrições poéticas, mas dosa informações com precisão cirúrgica. A cidade pequena, o jornalismo investigativo... tudo serve ao clima, mostrando que, às vezes, menos é mais.

Porém, cá entre nós, escritores: os personagens de Donlea são como rascunhos de arquétipos. Eles cumprem funções, mas não respiram fora das páginas. Como contraponto, acredito que nosso desafio é criar almas com motivações autênticas, contraditórias e singulares, porque é isso que transforma uma trama boa em inesquecível.

Em A Garota do Lago, noto uma dependência excessiva da reviravolta final. O livro aposta todas as fichas nela, e, quando ela não surpreende, a estrutura treme. E aqui deixo o meu lembrete: o caminho de uma narrativa deve ser tão saboroso quanto o seu destino. E as emoções dos personagens devem ser a matéria-prima, não apenas ferramentas que os levem de um ponto a outro.

No fim das contas, A Garota do Lago é como um bom encontro casual: divertido, eletrizante, mas que não deixa saudades. A nós, leitores e escritores, resta agradecer pelos aprendizados e seguir navegando, entre águas rasas e profundas,  sempre em busca da próxima grande história.

Um abraço literário!

Elôh Santi 

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Título: A Garota do Lago  Autor: Chalie Donlea  
Páginas: 296  ✦ Ano: 2017 ✦ Editora: Faro Editorial

domingo, 5 de outubro de 2025

Página Interior: o trimestre que me replantei


Há dias em que acordo psicóloga, tentando entender o mundo; noutros, escritora, querendo reinventá-lo. No meio disso, reviso trabalhos acadêmicos, sonho com uma loja cheia de miudezas fofas e imagino vídeos que nunca gravo. Me pergunto se sou dispersa ou apenas inteira demais para caber em um molde. Este último trimestre foi justamente sobre habitar essa pluralidade, um exercício intenso de aceitar que sou uma coletânea de eus, e não uma personagem única e plana.

Julho, agosto e setembro formaram uma espiral onde a confusão externa foi um reflexo fiel da interna. Retomei os atendimentos psicoterapêuticos online, aquele retorno ao divã que, mais do que uma prática profissional, foi um reencontro com minha própria escuta. Paralelamente, senti a necessidade de um novo batismo para o blog: “Divã Literário” deu lugar à “Página Interior”. Foi mais do que uma troca de nome; foi um alinhamento de propósito, um convite para que o exterior espelhasse com mais verdade o universo interior que desejo compartilhar.

Meu trimestre foi um mosaico. Trabalhei demais em algumas partes, deixei outras dormindo em silêncio. Tentei fazer planos, me perdi nos meus próprios roteiros. Mas percebi que, enquanto me cobrava por foco, o que eu realmente buscava era sentido. E o sentido, às vezes, é movimento, não linearidade. Foi nesse vai e vem que percebi a beleza do processo: a bagunça não era sinal de fracasso, mas de germinação.

E que terreno mais fértil para germinar ideias do que a pequena horta que comecei a construir no quintal? Enfiando as mãos na terra, encontrei uma paciência que me faltava na tela do computador. Aquele cantinho, que agora também acolhe minhas horas de leitura aos finais de semana, tornou-se um lembrete tangível de que algumas das melhores coisas (nas plantas e na vida) exigem tempo, cuidado e a coragem de simplesmente começar, mesmo sem saber tudo.

Até minha estante literária sentiu esse sopro de renovação. Mergulhei de cabeça em “Divinos Rivais”, minha primeira "romantasia", e foi uma deliciosa libertação. Percebi que afastar-se de preconceitos e se permitir novos gêneros é como regar a alma com algo inesperado. Essa abertura ecoou em outra conquista: a criação de uma conta no Substack. Ver aqueles primeiros assinantes chegando trouxe uma satisfação doce e comovente, aquele sussurro gentil de que “sim, tem gente que gosta de ler o que escrevo”.

Foi um trimestre de semear, tanto literal quanto metaforicamente. Semear palavras na nova plataforma, sementes na terra e novas perspectivas na mente. A cobrança por uma identidade única e focada foi, pouco a pouco, sendo substituída pela curiosidade sobre para onde essa multiplicidade pode me levar. Esse espiral, percebi, não é um círculo vicioso, mas uma ascensão, onde cada volta oferece uma vista diferente do mesmo eu complexo que sou.

Talvez o segredo não seja escolher uma versão, mas aceitar que todas moram em mim. A psicóloga observa, a escritora traduz, a revisora organiza, a sonhadora vende o que acredita ser bonito. O trimestre foi confuso, sim.  Mas, no fundo, era eu tentando nascer inteira. E na brisa leve do meu quintal, entre livros e mudas, entendo que ser várias não é sinônimo de estar perdida; é a prova de que estou viva, pulsante e, finalmente, em casa.

Abraços floridos e até a próxima, 

Elôh Santi