Lançado no Brasil pela editora Astral Cultural em 2024, A Maldição da Casa das Flores (original She Is a Haunting), de Trang Thanh Tran, chegou com a credencial de best-seller do The New York Times e uma premissa que é um convite irrecusável para mim, uma sedenta fã de terror inteligente. A ideia de uma casa colonial francesa no Vietnã que é, ela mesma, uma entidade faminta e cheia de rancor histórico é simplesmente brilhante, eu achei. Fiquei genuinamente ansiosa para explorar cada corredor sombrio e desvendar segredos familiares e sobrenaturais. A promessa era de um terror gótico mesclado com uma crítica profunda ao colonialismo, e abri o livro com enorme expectativa.
Confesso, porém, que minha jornada por essa casa visceralmente florida foi como caminhar por seus próprios corredores: muita neblina e sombras que, por vezes, atrapalham mais do que revelam. Continuo concordando com minha avaliação prévia de que se trata de uma premissa brilhante, mas agora entendo também que a execução ficou aquém. A escrita de Trang, em diversos momentos, peca por ser excessivamente contemplativa e etérea. Certas cenas de terror ou revelações são narradas com uma abstração que, em vez de construir clima, dispersa o entendimento. É preciso reler parágrafos, virar páginas para trás, e nem sempre a recompensa clareia o caminho.
Esse efeito de “névoa literária” se intensifica com outro ponto que me gerou dificuldade: a inserção de palavras vietnamitas sem tradução direta. Entendo e valorizo profundamente o desejo de autenticidade, de mergulhar o leitor na cultura. Porém, quando o contexto geral já é deliberadamente vago e onírico, presumir o significado de termos específicos vira uma camada extra de quebra-cabeça. Sinto que, como leitora, perdi nuances emocionais e culturais importantes porque estava muito ocupada tentando decifrar o básico da ação e do diálogo.
Não me entendam mal: os alicerces desta casa são fortíssimos. A ideia de que a própria arquitetura é um fantasma, um parasita que se alimenta de memórias e traumas coloniais, é genial. A crítica social é o ponto mais alto da obra. Ver a história da ocupação francesa materializada em azulejos, madeira e uma fome sobrenatural deu um peso visceral à narrativa, elevando-a muito além de um simples fantasma no sótão. Essa camada de realismo histórico é o que faz o livro valer a pena, dando profundidade e um horror verdadeiramente perturbador.
Mas, como uma casa com a pintura descascando, a execução não sustenta totalmente a grandiosidade da estrutura. A trama, repleta de segredos familiares e revelações sobrenaturais, acaba se perdendo em suas próprias camadas confusas. Em vez de uma tensão crescente e clara, temos picos de confusão. A sensação final é a de que precisamos trabalhar demais para juntar os cômodos da história, quando o fluxo natural da leitura deveria nos guiar pela mão, mesmo que tremendo de medo.
No fim das contas, minha experiência foi de admiração e frustração em doses quase iguais. É um livro ambicioso, que tenta e consegue falar de coisas importantes com uma voz própria, mas tropeça na própria ambição narrativa. Recomendo para leitores pacientes, que não se importam em navegar por águas turvas em troca de uma recompensa temática poderosa. Para quem busca um terror mais direto e atmosférico, pode ser uma leitura um pouco cansativa. Essa casa com suas flores é, de fato, assombrada, mas talvez por um excesso de ideias boas que não encontraram a janela certa para entrar.
Um último adendo: ainda que não existam notas de rodapé com tradução dos termos vietnamita, a edição não peca em beleza . A diagramação está muito bem feita e a capa é simplesmente belíssima .
Grande abraço e até a próxima ! 🥀
Elôh Santos
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Outro livro de autor mais perdido que cego em tiroteio. Não consegui terminar .
ResponderExcluirConfesso que senti dificuldades para terminar também. Mas entendi que tenho dificuldades com esse tipo de escrita muito "onírica, etérea".
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