O que seria de nós se um dia nos arrancassem a pessoa que mais nos define? Não falo apenas de alguém querido cuja ausência sentimos com saudade, mas de alguém que, sem percebermos, sustenta nossa própria noção de quem somos.
Foi essa pergunta que começou a ecoar em mim enquanto lia Minha Metade Silenciosa, do autor Andrew Smith. A história me fez pensar sobre como certas relações acabam se tornando parte da nossa própria identidade.O livro acompanha dois irmãos, Stark, apelidado de Palito, e Bosten. Crescendo em um ambiente familiar difícil, os dois desenvolvem entre si uma ligação profunda, quase como se um fosse o abrigo emocional do outro. Bosten assume muitas vezes o papel de proteção, enquanto Stark encontra no irmão mais velho uma forma de reconhecimento que o mundo ao redor raramente oferece.
Durante a leitura, percebi que a narrativa não fala apenas sobre laços familiares. Ela toca em algo muito humano: nossa necessidade de nos enxergarmos no outro para existir. Em muitas relações, o vínculo vai além do afeto e acaba funcionando como um tipo de espelho onde a identidade se apoia. Quando esse espelho se rompe, a sensação não é apenas de tristeza, mas de perda de chão.
A história avança justamente quando essa estrutura começa a se desfazer. Bosten se vê diante de conflitos intensos dentro da própria família e acaba se afastando de casa, deixando Stark diante de uma ausência que não é apenas física. A partir daí, o livro passa a explorar o desafio de alguém que precisa aprender a existir sem a presença que antes lhe dava segurança. Um dos aspectos que mais me envolveram foi a maneira como o autor mostra esse processo de crescimento. Não há grandes heroísmos nem soluções rápidas. O que vemos é um caminho lento e cheio de hesitações, em que o protagonista precisa reconstruir a própria percepção de si mesmo em meio à perda e à solidão.
Minha leitura do livro como um todo é bastante positiva. A narrativa é sensível, reflexiva e consegue tocar em temas difíceis de maneira muito humana. Ainda assim, senti que o final deixa algumas pontas soltas: certos personagens que ao longo da história parecem importantes para o desenvolvimento da trama acabam ficando sem um fechamento claro.
Essa sensação de inacabado não chega a comprometer a experiência geral da leitura, mas deixa a impressão de que algumas histórias poderiam ter sido exploradas com mais profundidade. Mesmo assim, Minha Metade Silenciosa continua sendo um livro que provoca reflexão e nos faz pensar sobre como nos construímos nas relações que atravessam nossa vida.
No fim, a história parece lembrar algo simples e ao mesmo tempo difícil de aceitar: crescer também significa aprender a existir sem depender completamente da presença do outro. Amar, talvez, não seja se tornar metade de alguém, mas encontrar uma forma de continuar inteiro mesmo quando certas ausências permanecem.
Abraço e até a próxima ! 💝
Elôh Santi

%20(31).png)
Amo esse livro, o autor escreve de forma delicada sobre temas super pesados. Lembro de ter ficado bem triste com.a situação dos meninos, mas valeu a pena, pq livro bom é o que deixa a gente sentindo algo , seja algo bom ou ruim.
ResponderExcluirConcordo. Livro precisa causar sentimentos, quanto mais densos , melhor.
ExcluirDurante muito tempo tive carinho por esse livro, na verdade até hoje tenho. Acho que muito adolescente que leu na época e tinha problemas se viu refletido nos personagens.
ResponderExcluirEu não tinha ideia disso. Mas varias pessoas me falaram isso lá no Instagram. O carinho que tem por esse livro por conta , principalmente, da historia do Bosten.
ExcluirOi, Elôh!!
ResponderExcluirEu não conhecia o livro e fiquei curiosa. Fiquei pensando: esses personagens que ficaram com o final solto... será que o livro não terá alguma continuação ou algum spin-off? Às vezes é isso!
Um beijo,
Fernanda Rodrigues | contato@algumasobservacoes.com
Algumas Observações
Projeto Escrita Criativa